22 de mai de 2010

Avós (1)

 
Minha avó Solaia morreu com 104 anos. Ela era uma Naknenuk.
Tenho orgulho de descender desse povo bonito e guerreiro, por isso mesmo alvo de uma implacável política de extermínio.Solaia era conhecedora dos segredos das matas, dos animais, plantas, fontes de água. Era senhora de um mundo selvagem  que fazia o inferno dos brancos
Grupos hostis aos propósitos civilizadores, como os indígenas do Vale do Mucuri e do Rio Doce, em Minas Gerais do século XVIII e XIX, mereceram a identidade de selvagens e foram considerados obstáculos que precisavam ser removidos para a marcha  da civilização. 
Mereceram também o nome genérico e ofensivo de Botocudos, dado pelos portugueses a diversos povos histórica e geneticamente heterogêneos do grupo lingüístico macro-jê (etnias Pojixá, Jiporok, Naknenuk, Nakrehé, Etwet, Krenak). 
A  guerra contra os Botocudos durou mais de um século . Para isto as tropas oficiais usaram desde cães treinados e alimentados com carne de indígenas até contaminação proposital com sarampo e varíola. 
Quando pegaram Solaia, quase uma menina, a guerra estava no fim. Já eram os tempos  dos ingleses e dos boatos sobre uma estrada de ferro no Vale.
As lembranças de Solaia são parte das  narrativas familiares, fábulas que desde criança eu ouvi contar. São também parte do acervo das memórias de um grupo excluído, marginalizado. Minorias,  que com suas “memórias subterrâneas”, opõem-se à "memória oficial"(POLLAK:1989). 
Solaia e os seus sabiam que um território é  o chão mais a identidade  (Milton Santos:1999,8). Por isso valia a pena morrer lutando. Podem ter perdido a terra, a floresta, a vida, mas vamos sempre lembrar do seu desejo de liberdade. 
(Fotos: botocudos- Vale do Rio Doce - início do Século XX / desenhos: Debret e Rugendas- Sec. XIX)

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