7 de jun de 2013

Faroeste Caboclo

A Nação no filme Faroeste Caboclo
Por Margareth Cordeiro Franklim –

Não tinha medo o tal João, de Santo Cristo, Bahia. Nem do racismo feroz da sociedade que o condenava à marginalidade, nem da fome que o rondava desde sempre. Tinha também fome de aprender e isso fazia dele muito mais do que um sobrevivente. Era um artista , a madeira sua matéria e o amor sua inspiração. A vida contingente despejava todo seu poder de destruição e ele ia driblando com seu jogo de corpo, negra arte de escapar do mal que o cercava.

Por uma janela entrou nos bastidores da Nação que o excluía porque seus antepassados foram trazidos para cá escravos e essa condição, marcada na sua cor, era a interdição mantida à custa de insultos e violência policial, falsamente confundida com miséria, mas muito além da carência material. Era preto e por isso, com ou sem dinheiro, a reação dos brancos, nem tão brancos assim e até dos outros pretos como ele era de que devia manter-se no lugar de exceção, onde já se viu?

A janela em que João descobriu que país é este era também a da sua amada e por ela ele desafiou os poderosos, não fugindo à luta, brado heroico retumbante em Brasília, metonímia da nação de contrastes, moderna sem modernidade, cujas dores cantadas nas letras do rock empolgaram a geração que logo trocou a revolução pelas vantagens do poder político ou pelos embalos da cocaína, craque e outras drogas.
A ditadura que acabava deixou sua herança no aparato repressivo, na prática da tortura, na promiscuidade com o crime organizado. A democracia que ressurgia naqueles anos com a energia renovada nas greves, passeatas e versos politizados, como os do Legião Urbana, ainda tinha que reconhecer e incluir sua metade negra , mas isso, como ensina a teoria, tinha que ser obra dos próprios negros que continuaram lutando por reparações, cotas, fim dos preconceitos e da discriminação.

Condenado, João, como os outros jovens negros marcados para morrer, experimenta a permanência cruel da falta de justiça e dos direitos para todos. Incompleta, como as promessas não cumpridas pela modernização do país, a falta de cidadania ainda marca o compasso do nosso faroeste caboclo. Nosso João/ Django não pode ser livre, como no filme de Tarantino.

A saga do jovem de Santo Cristo não pode ser simplesmente contada, pois ele não é só personagem e a narrativa não é só ficção. Contaminado pela realidade, o poeta/autor não pode livremente inventar, devendo antes arcar com sua missão de transformar o real com sua narrativa, inventando a Nação que falta na consciência dos que continuam emprestando sua bandeira para cobrir tanta infâmia e covardia, como nos versos de Castro Alves, outro baiano.

Os gigantes da montanha




O Galpão encenou os Gigantes da Montanha em BH, texto difícil de Pirandello, numa noite gelada e eu fui. Milhares de pessoas agasalhadas e felizes, viram o espetáculo, incomodadas pelo vento frio e pela precariedade do anfiteatro improvisado. Todo mundo fez um grande esforço para entender o que queria dizer aquela história, espremidos literalmente, corpo e mente no texto do mestre italiano.


Pirandello que ganhou o Nobel de Literatura e chegou a apoiar Mussolini e o fascismo, percebeu, tarde demais talvez, o que acontecia e quem eram de verdade os gigantes da montanha Mesmo que não tenham entendido muita coisa,os espectadores do Galpão puderam ouvir as últimas palavras do texto inacabado : eu tenho medo.


A frase exprimia bem minha sensação diante de uma cidade inteira, sofrendo como em uma aula difícil , tendo que fazer cara de inteligente sobre a grama úmida, no frio. Uma grande aula. Galpão , parabéns!