28 de ago de 2010

13 de ago de 2010

                                                                               (Faiga Ostrower)
"Assim como uma pedra jogada na água torna-se centro e causa de muitos círculos, e o som se difunde no ar em círculos crescentes, assim também qualquer objeto que for colocado na atmosfera luminosa propaga-se em círculos e preenche os espaços em sua volta com infinitas imagens de si, reaparecendo em cada uma de suas múltiplas partes" (Leonardo da Vinci apud Faiga Ostrower)
                                                                                                  (Leonardo- 1508)

9 de ago de 2010


                                                                                                 (K. Malevich)

A EDUCAÇÃO PELA PEDRA
Uma educação pela pedra: por lições;
para aprender da pedra, freqüentá-la;
captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
ao que flui e a fluir, a ser maleada;
a de economia, seu adensar-se compacta:
lições de pedra (de fora para dentro,
cartilha muda), para quem soletrá-la.
Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
e se lecionasse não ensinaria nada;
lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
uma pedra de nascença, entranha a alma.

(João Cabral de Melo Neto)

6 de ago de 2010

Viver com medo é morrer duas vezes
A violência à mulher
MARGARETH C. FRANKLIN
Publicado em 05/08/2010 - Jornal O Tempo

Mais uma notícia nos jornais sobre o bárbaro assassinato de uma mulher na região metropolitana de Belo Horizonte pelo ex-marido, desta vez a golpes de machadinha e na frente dos filhos pequenos, produz dor e revolta em todos os que não aceitam viver com medo.
Viver com medo é morrer duas vezes!
Penso isso em relação à nossa impotência frente aos maníacos estupradores e aos ex-maridos e namorados violentos e infantis a descontar no corpo da mulher que viveu com eles o poder ferido e mal resolvido de um suposto macho dominante.
Também ficamos paralisados frente às manchetes cotidianas de violência brutal, às pilhas de boletins de ocorrência sobre agressões e ameaças nas delegacias de polícia, às lágrimas salgadas dos rompimentos, às grosserias e pequenas baixezas domésticas nossas de cada dia, amém.
É preciso não acreditar que bastam a ação da polícia e o bombardeio da mídia para impedir o crescimento da vio lência contra a mulher.
Como num espelho, uma sociedade dominada pelo prazer sádico de assistir a espetáculos horríveis como o trágico episódio do goleiro do Flamengo reproduz os incontáveis gestos de violência e transforma em audiência a exploração exaustiva da imagem de uma mulher sendo devorada por cães depois de ter sido espancada até a morte.
O impressionante gol contra si mesmo do tal Bruno, ele próprio um cinocéfalo (aquela figura mitológica com corpo humano e cabeça de cachorro), estimula apetites sinistros dos que, como ele, sentem-se possuídos pelo desejo de poder e controle sobre os mais fracos, sejam eles mulheres, crianças, pobres ou excluídos em geral.
A violência brutal contra uma mulher, seja ela bruxa ou fada, prostituta ou freira, celebridade ou anônima, acaba por fragilizar e atingir nós todas, sem exceção. Mas também nos atingem e violam nossos direitos todas as formas de violência silenciosa cometid as contra as mulheres no interior das casas, nos locais de trabalho e no espaço privado dos relacionamentos entre os sexos. Dizendo de outra forma, é o reconhecimento das tensões existentes nas diversas formas de dominação e subalternidade que coloca em evidência a necessidade de as próprias mulheres se articularem e exigirem respeito.

Sabemos que o que mais funciona é o salve geral, o alerta à comunidade, a religação entre todos numa ampla rede de proteção para enfrentar o medo e superar o sofrimento paralisante pela energia da indignação.
Todas somos partes de uma ampla corrente contra a violência em geral, mas especialmente somos contrárias a que é dirigida às mulheres enquanto gênero, pois essa revela a degeneração da nossa própria condição humana.
Munidas de nossos recursos conjuntos (que certamente não são poucos), somos milhões de mulheres a defender nossa dignidade e a exigir justiça. E devemos gritar não ao mal banalizado que cresce e desafia o que chamamos civilização.