16 de abr de 2010

Hélio Oiticica
Parangolé urbano


Seu Tarcísio ajudou a fundar o PT no Barreiro. Ainda me lembro que quando ele tecia suas análises ou fazia perguntas difíceis, eu ficava imaginando se  não era um daqueles líderes operários clandestinos que se esconderam nos cantos dos bairros operários para escapar da perseguição da ditadura militar e apareciam agora nos núcleos do PT, disfarçados de pobre, com jeito simples e roupas modestas.
Mas que nada, Seu Tarcísio era mesmo da comunidade e era inteligente, dando a impressão de sempre sorrir enquanto falava. Quero caprichar nas tintas da sua descrição, a camisa azul, o cabelo lavado penteado de lado, escondendo a careca. Na ocasião, já tinha ficado cego e começava a se firmar como camelô, vendendo bugigangas pelas ruas do Centro. Seu ponto costumeiro, na esquina da Bahia com Goitacazes, é ainda um observatório privilegiado, como sabiam Nava e Drummond.
E ele resiste à frente do seu mostruário, parangolé urbano feito em tosca armação de papelão sobre um carrinho. Ali pendura espelhinhos, cadarços coloridos, tomadas de luz, ralos de pia, pentes redondinhos, cortadores de unha, agulheiros e toda a sorte de incríveis objetos que compõe o patrimônio e a moldura do homem invisível para quem, no sobe e desce mais famoso da metrópole, não nota sua presença há trinta anos, idade do Partido que ajudou a construir.
O velho senhor cego ainda carrega seu estandarte de exposição de inutilidades e tem sempre o mesmo sorriso no rosto. Seu Tarcísio, herói anônimo, cuja ação cidadã no passado encontra-se ameaçada pelos burocratas que ajudam a manter a tradição da elite brasileira de mudar conservando.
Contra esses, a memória do sonho de pessoas como Seu Tarcísio...

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