24 de set de 2009

Os bons companheiros

A festa da DS e os bons companheiros

E então trinta anos depois nos encontramos num bar para rever os amigos que deixamos para trás na vida, mas nunca esquecemos. Esses anos passaram tão rápidos e produziram mudanças tão radicais que tornaram relíquias de um passado longínquo os discos que ouvimos juntos em outras festas, as máquinas de escrever que martelávamos furiosos escrevendo panfletos, as fichas de telefone e as organizações revolucionárias com suas utopias. (Recebi um alto elogio na noite da festa ao ser considerada por um velho camarada como a única com mofo trotskista ainda no grupo por acreditar na tradição brasileira de mudar conservando: quer dizer, talvez eu, como esses objetos e as velhas idéias de revolução, tenhamos ficado no passado).
Devo dizer que é disso que falo: de outra tradição desvalorizada e esquecida, a que cada revolução no momento mais intenso produz e que se perde com o declínio das formas organizativas que criou para o exercício do poder popular , ou como definiu H. Arendt: o tesouro perdido das revoluções, agora enterrado sob as areias de um tempo sombrio...
Mas uma festa deve sempre lembrar as utopias que os humanos são capazes de sonhar juntos e por isso celebram. No nosso caso, a festa era uma forma de mostrar que anos depois do nosso encontro lá atrás, no início da revolução à brasileira, estávamos juntos e unidos.
Somos, à nossa moda, os fundadores de uma nova etapa histórica e sabemos que desenhamos no corpo coletivo do que chamamos sociedade uma tatuagem “ que é prá te dar coragem, pra seguir viagem quando a noite vem”, como na canção. Essa tatuagem é o amor pela política, a felicidade pública que experimentamos intensamente ao conspirar para derrubar a ditadura e fundar o maior partido de trabalhadores do mundo. Ganhamos com isso um conhecimento raro, misterioso, experimentado por poucos. Essa felicidade sentida pelos que agem no mundo público, ou seja, fora dos limites da vida privada, da intimidade é o legado maior desses homens e mulheres de meia idade que celebram hoje num bar a alegria dos moços de outrora.
Cumprimos um sonho dos que pensaram um monte de conceitos – idéias – matrizes: o partido, o intelectual, a revolução, a história, a fundação e a república e projetamos esse conhecimento no vácuo da experiência de exercício de poder popular no mundo: inventamos.
Provamos a todos a capacidade de governar e administrar o Estado e transformamos o país numa potência mundial: mudamos.
O ícone trabalhador- estrela Lula brilha no mundo, na constelação repaginada dos grandes líderes do começo do século XXI. Todos são bem intencionados, querem salvar o planeta, combatem a fome e deitam os recursos do Estado para garantir o domínio total do capitalismo de consumo enquanto ainda tentam garantir uma versão atualizada de Welfare State: conservamos.
(Fim do Primeiro Ato)



A grande travessia que essa geração experimentou, considerando o PT como o fenômeno gerador que nos uniu e separou ao longo dessas três décadas, encalha-nos na praia da melancolia. Agora brilha o sol negro enquanto sobrevivemos produzindo endorfina, adrenalina ou consumindo fluoxetina e outras inas que o mundo oferece fartamente. O silêncio prende nossas asas e ninguém mais voa atrás de sonho nenhum, esperando, pachorrenta e diletantemente, algo acontecer na sequência enfiada de dias e noites. Apenas assistimos e by the windows vivemos a dimensão virtual a que foi reduzido o espaço público.
Os labirintos do poder são muitos e estamos perdidos sem o fio de Ariadne. Perdemos a DS? Claro que não, dizem os meninos da UFMG, orgulhosos pela conquista do D.A Fafich. (Lembro do Vota Centelha na parede do prédio da Carangola e comemoro com trinta anos de atraso saber o D.A da DS, vê se pode... )
Mas a DS sempre foi considerada uma organização de intelectuais e esses hoje estão ameaçados e reduzidos ao silêncio por escolha própria, como resposta à perda do mundo público, condição para a existência do seu trabalho. Se há silêncio, como bem apontou M. Chauí, suas causas devem ser indagadas, pois ameaçam a própria existência do intelectual.
O avanço espetacular da tecnociência, o poder absoluto do binômio mídia-consumo, a perda generalizada de direitos, a redução do cidadão a consumidor privado, o declínio do espaço público e por conseqüência da política e da liberdade, agora substituídos pela sociedade de segurança máxima, além da falência anunciada do equilíbrio planetário deixam cada um de nós com a postura do anjo do Paul Klee, relido por Walter Benjamim: uma tempestade chamada progresso nos empurra para o futuro, mas viramos às costas e olhamos o passado. Talvez porque não exista futuro para onde olhar. Talvez porque como humanos e não anjos, vemos apenas os acontecimentos e no passado além dos mortos, das ruínas e da destruição existe também aqueles que foram capazes de reinventar a vida. Isso ajuda guiar o nosso caminhar cego: lembramos.
Fim do Segundo Ato
Cai o Pano

Margareth Franklin - set/2009

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