8 de set de 2016

As Fiandeiras - Portinari

As fiandeiras

Houve um tempo em que morei atrás desse mural de Cândido Portinari, em Cataguases-MG. Todos os dias ao sair de casa, via os azulejos pintados pelo mestre, exibidos na porta de uma fábrica de tecidos que encomendou a obra nos idos dos anos 1950, em homenagem ao patriarca da família proprietária.
Na praça mal cuidada e árida, as poucas árvores não conseguem diminuir o impacto do sol  sobre o painel enorme que registra o trabalho das fiandeiras, as mulheres operárias têxteis que se ali se desdobram há mais de um século  na lida cotidiana dentro dos muros da tecelagem.  
Talvez em homenagem ao sol e ao calor infernal que com certeza tornam mais duro o trabalho das mulheres na fábrica, o artista tenha escolhido o amarelo como a cor dominante do mural. Os corpos femininos estão estampados em uma linha algo biográfica a sugerir a condição operária do nascimento à morte, da juventude à velhice e de novo ao nascimento, não no tempo linear próprio das histórias de vida segundo a cultura dominante, mas no ciclo inesgotável de exploração a que se submetem as classes subalternas, sem escapatória.
No trabalho com os fios, a metáfora da vida sendo tecida por mulheres  que geram novas vidas para continuar indefinidamente o destino de operárias, ingressando ainda crianças no trabalho da fábrica. O penteado comum nas figuras desenhadas nos azulejos confirma a precaução delas e as histórias terríveis de teares esmagando meninas cujos cabelos se prendiam nas máquinas,em acidentes fatais nos teares.
 Portinari sabia que mesmo trabalhando por encomenda para os donos da fábrica de tecidos, sua tarefa como artista era produzir um outro dizer com a linguagem da arte. As fiandeiras soam quase como um libelo contra a exploração do trabalho, especialmente do trabalho infantil. As meninas operárias são um grito de denúncia contra um tempo de sujeições e explorações que não passa e se reproduz infinitamente, interrompido apenas pelo registro impresso nos azulejos. Ao pararmos para ver a obra de arte, subvertemos a lógica do tempo parcelado, vendido por tão pouco a quem nos domina. Dessa forma, podemos ter um raro momento de consciência - tempo de despertar e de quem sabe, mudar essa história. (texto e fotos- Margareth C. Franklim - set/2013)

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