4 de abr de 2011

Conceição Evaristo

Conceição Evaristo, nascida em Belo Horizonte, é hoje uma das mais importantes representantes da literatura afro brasileira no país. Seu livro mais conhecido, Ponciá Vicêncio, narra as desventuras de uma mulher negra na cidade grande. Como as figuras de barro que constrói, Ponciá é fragil e delicada, mas sua sensibilidade artística não a livra de todas as formas de violência que historicamente atingem às mulheres negras e pobres. Porém, Ponciá é também forte como a arte e seu desejo de liberdade se revela em suas memórias, na luta para reencontrar seu passado negado, sua família, sua identidade. Neste blog o registro de um dos  poemas mais emblemáticos de Conceição Evaristo


Vozes-mulheres


A voz de minha bisavó ecoou
Pierre Verger
criança
nos porões do navio.
Ecoou lamentos

de uma infância perdida.

A voz de minha avó
ecoou obediência

aos brancos donos de tudo.
A voz de minha mãe
ecoou baixinho revolta
no fundo das cozinhas alheias
debaixo das trouxas
roupagens sujas dos brancos
pelo caminho empoeirado
rumo à favela.
A minha voz ainda
ecoa versos perplexos
com rimas de sangue
e fome.
A voz de minha filha
recolhe todas as nossas vozes
recolhe em si
as vozes mudas caladas
engasgadas nas gargantas
.

Um comentário:

  1. Voz de lamúria e flores escondidas; flores no angar de sonho e ideal; flores e flores despercebidas. Lamento e maratona mortal. Vai a esperança neste floral incerto, num terral longe e deserto; entre milhos urtigas e soror. Chora abuelas, madres e hijas, avós, mães e filhas, por esta América em clamor.

    Parabéns pelo post.
    Em breve: disponibilizarei também obra sobre martírio do povo africano em poesia.
    Mantenha contato visitando meu blog.

    Abraço.

    Marcelo.

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