23 de dez de 2010

Ascânio Lopes


Ascânio Lopes Quatorzevoltas foi um dos principais nomes do modernismo dos Verdes na cidade de Cataguases. Sua morte prematura, aos 22 anos, selou o destino do poeta, transformando-o em um mito para os jovens que além de desancarem o academicismo e as velhas e bolorentas formas poéticas dos anos 20, ligaram para sempre a cidade à vanguarda internacional das artes.
È fácil perceber porque o jovem herói dos Verdes, apesar do tempo curto que teve, tornou-se um dos poetas mais expressivos do grupo, dialogando com Drummond, Mario de Andrade e outros do seu tempo, confirmando a vocação artística da sua cidade e deixando um legado breve e precioso às gerações posteriores.
Dizem as lendas que é possível perceber o seu vulto de poeta nas madrugadas quentes , perto de uma gigantesca palmeira imperial onde cantam os sabiás de todos os exílios, inclusive os da morte, que o levou ainda menino.

Cataguazes - Ascânio Lopes

   Para Carlos Drummond de Andrade

Nem Belo Horizonte, colcha de retalhos iguais,
cidade européia de ruas retas, árvores certas,
casas simétricas,
crepúsculos bonitos, sempre bonitos;
Nem Juiz de Fora. Ruído. Rumor.
Apitos. Klaxons.
Cidade inglesa de céu enfumaçado, cheio de chaminés negras;
Nem Ouro Preto, cidade morta,
Bruges sem Rodenbach,
onde estudantes passadistas continuam a tradição das coisas
                                                                  [que já esquecemos;

Nem Sabará, cidade relíquia,
onde não se pode tocar, para não desmanchar o passado
                                                                  [arrumadinho;
Nem Estrela do Sul, a sonhar com tesouros,
tesouros nos cascalhos extintos de seu rio barrento;
Nem Uberaba, nem, nem, cidades arrivistas de gente que no
                                                                  [pretende ficar:
Não! Cataguazes... Há coisa mais bela e serena oculta nos
                                                                  [teus flancos,
Nas tuas ruas brinca a inconsciência das cidades
que nunca foram, que não cuidam de ser.
Não sabes, não sei, ninguém compreenderá jamais o que
                                                                  [desejas, o que serás,
No és do passado, não és do futuro; não tens idade...
Só sei que és
a mais mineira cidade de Minas Gerais. . .
Nem geometria, nem estilo europeu, nem invasão americana
[de bangalôs derniecri.
                                                                 
Tuas casas são largas casas mineiras feitas na previsão de
                                                                  [muitos hóspedes.
Não há em ti o terror das cidades plantadas na mata virgem.
Nem o ramerrão dos bondes atrasados, cheios de gente
                                                                  [apressada.
Nem os dísticos de aqui esteve aqui aconteceu.
Nem o tintim áspero dos padeiros.
Nem a buzina incômoda dos tintureiros.
Teus leiteiros ainda levam o leite em burricos.
Os padeiros deixam o pão á janela (cidade mineira).
Teu amanhecer é suave.
Que alegria de só ter gente conhecida faz teu habitante
[voltar-se para cumprimentar todos que passam.
Delícia de não encontrar estrangeiros de olhar agudo esperto
                            [mau, a suspeitar riquezas nas terras.
Alegria dos fordes brincando (são dois) na praça.
(Depois vão dormir juntinhos numa só garagem).
Jacaré!
João Arara!
João Gostoso!
teus tipos populares.
A criançada atira-lhes pedras e eles se voltam imprecando.
Rondas alegres de meninas nas ruas, as tardes, sem perigo
                                                                  [de veículos,
papagaios que se embaraçam nos fios de luz, balões que sobem,
foguetes obrigatórios nas festas de chegada do chefe político.
Jardins onde meninas ariscas passeiam meia hora só antes
                                                                  [do cinema.
Ar momo e sensual de voluptuosidade gostosa que vibra
nas tuas tardes chuvosas, quando as goteiras pingam nos
                                                                  [passantes
e batem isócronas nos passeios furados.
Há em ti a delícia da vida que passa porque vale a pena passar,
que passa sem dar por isso, sem supor que se vai transformando.
Em ti se dorme tranquilo sem guardas-noturnos.
Mas com o cricri dos grilos,
o ranram dos sapos,
o sono é tranquilo como o de urna criança de colo,
Vale a pena viver em ti.
Nem inquietude,
nem peso inútil de recordações
Mas a confiança que nasce das coisas que não mudam bruscas,
nem ficam eternas.

                            Poemas Cronológicos — "Verde" Editora — 1928
                            — Cataguases — págs. sem numeração.

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