6 de ago de 2010

Viver com medo é morrer duas vezes
A violência à mulher
MARGARETH C. FRANKLIN
Publicado em 05/08/2010 - Jornal O Tempo

Mais uma notícia nos jornais sobre o bárbaro assassinato de uma mulher na região metropolitana de Belo Horizonte pelo ex-marido, desta vez a golpes de machadinha e na frente dos filhos pequenos, produz dor e revolta em todos os que não aceitam viver com medo.
Viver com medo é morrer duas vezes!
Penso isso em relação à nossa impotência frente aos maníacos estupradores e aos ex-maridos e namorados violentos e infantis a descontar no corpo da mulher que viveu com eles o poder ferido e mal resolvido de um suposto macho dominante.
Também ficamos paralisados frente às manchetes cotidianas de violência brutal, às pilhas de boletins de ocorrência sobre agressões e ameaças nas delegacias de polícia, às lágrimas salgadas dos rompimentos, às grosserias e pequenas baixezas domésticas nossas de cada dia, amém.
É preciso não acreditar que bastam a ação da polícia e o bombardeio da mídia para impedir o crescimento da vio lência contra a mulher.
Como num espelho, uma sociedade dominada pelo prazer sádico de assistir a espetáculos horríveis como o trágico episódio do goleiro do Flamengo reproduz os incontáveis gestos de violência e transforma em audiência a exploração exaustiva da imagem de uma mulher sendo devorada por cães depois de ter sido espancada até a morte.
O impressionante gol contra si mesmo do tal Bruno, ele próprio um cinocéfalo (aquela figura mitológica com corpo humano e cabeça de cachorro), estimula apetites sinistros dos que, como ele, sentem-se possuídos pelo desejo de poder e controle sobre os mais fracos, sejam eles mulheres, crianças, pobres ou excluídos em geral.
A violência brutal contra uma mulher, seja ela bruxa ou fada, prostituta ou freira, celebridade ou anônima, acaba por fragilizar e atingir nós todas, sem exceção. Mas também nos atingem e violam nossos direitos todas as formas de violência silenciosa cometid as contra as mulheres no interior das casas, nos locais de trabalho e no espaço privado dos relacionamentos entre os sexos. Dizendo de outra forma, é o reconhecimento das tensões existentes nas diversas formas de dominação e subalternidade que coloca em evidência a necessidade de as próprias mulheres se articularem e exigirem respeito.

Sabemos que o que mais funciona é o salve geral, o alerta à comunidade, a religação entre todos numa ampla rede de proteção para enfrentar o medo e superar o sofrimento paralisante pela energia da indignação.
Todas somos partes de uma ampla corrente contra a violência em geral, mas especialmente somos contrárias a que é dirigida às mulheres enquanto gênero, pois essa revela a degeneração da nossa própria condição humana.
Munidas de nossos recursos conjuntos (que certamente não são poucos), somos milhões de mulheres a defender nossa dignidade e a exigir justiça. E devemos gritar não ao mal banalizado que cresce e desafia o que chamamos civilização.

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