21 de fev. de 2010
Sobre Matisse, escreveu Giulio Argan:
" Matisse viveu duas guerras; como todos com elas sofreu; mas não permitiu que se revelasse na pintura uma ponta sequer da dor do mundo. Se o mundo em suas crises de loucura destrói os valores da civilização, o sábio deve criar e acumular outros valores: a humanidade irá utilizá-los para se recuperar dos golpes da história. A arte conserva ou restabelece nos homens a alegria de viver."(1993, p.343 )
15 de fev. de 2010
FEVEREIRO
Transversal corta o espaço
dobrando o tempo
encurtando.
Do sonho eu chego a aurora. Quimérica
( nas chuvas as manhãs custam a chegar).
"O poeta finge que é dor".
Mas porque diabos tinha o sonho que excluir a poesia?
Para ter a sensação de avantesma.
Fantasma.
Passam os autos e os galos cantam.
Acordam vizinhos putos. Latas batem..
Tampas de comida de ontem ainda.
O relógio implacável aponta o trecho da rua
que ele pode andar com a cabeça descoberta.
Pouco, muito pouco. Logo outra forma geométrica
de concreto e trabalho cobrirá sua cabeça.
Mas andou na chuva
e aproveitou para abrir os pulmões ao seu limite
e engolir a madrugada úmida.
Sonho de homem que sonha tão pouco.
(Lembro-me de um cavalo no interior da Terra).
Batem latas. Batem sons do silêncio
no escuro da manhã.
Margareth Franklin
(publicado em Mulheres e crianças - 1995)
Transversal corta o espaço
dobrando o tempo
encurtando.
Do sonho eu chego a aurora. Quimérica
( nas chuvas as manhãs custam a chegar).
"O poeta finge que é dor".
Mas porque diabos tinha o sonho que excluir a poesia?
Para ter a sensação de avantesma.
Fantasma.
Passam os autos e os galos cantam.
Acordam vizinhos putos. Latas batem..
Tampas de comida de ontem ainda.
O relógio implacável aponta o trecho da rua
que ele pode andar com a cabeça descoberta.
Pouco, muito pouco. Logo outra forma geométrica
de concreto e trabalho cobrirá sua cabeça.
Mas andou na chuva
e aproveitou para abrir os pulmões ao seu limite
e engolir a madrugada úmida.
Sonho de homem que sonha tão pouco.
(Lembro-me de um cavalo no interior da Terra).
Batem latas. Batem sons do silêncio
no escuro da manhã.
Margareth Franklin
(publicado em Mulheres e crianças - 1995)
13 de fev. de 2010

Desobediencia Civil
A desobediencia civil é uma forma extrema de expressão política que, ao se manifestar por meio da associação, fala a linguagem da persuasão, resgata a faculdade de agir, gera poder pela ação conjunta de muitos e se coloca na esfera do interesse público. A desobediência civil é legítima e pode ser bem sucedida na resistência à opressão. Sua principal força é a natureza pacífica de sua ocorrência , a não violência como método de ação. Como a arte que escorre das revoluções...
A desobediencia civil é uma forma extrema de expressão política que, ao se manifestar por meio da associação, fala a linguagem da persuasão, resgata a faculdade de agir, gera poder pela ação conjunta de muitos e se coloca na esfera do interesse público. A desobediência civil é legítima e pode ser bem sucedida na resistência à opressão. Sua principal força é a natureza pacífica de sua ocorrência , a não violência como método de ação. Como a arte que escorre das revoluções...
Foi o que conduziu Ghandi, na Índia e as passeatas e greves que fizemos no fim do período da ditadura militar no Brasil. Foi também o caso da luta contra a segregação racial, além da resistência à guerra do Vietnã, nos EUA. Nesses casos, a desobediência civil foi a expressão de um empenho político coletivo na resistência à opressão, não se constituindo como rejeição da obrigação política, mas a sua reafirmação.
A desobediência civil é importante nos estados de anomia, ou seja, na ausência ou descumprimento generalizado das leis, pois significa resistência aos atos prejudiciais à dignidade da pessoa humana. Caracteriza-se por ser uma forma de protesto praticada por maiorias interessadas em modificar determinada realidade social e esgotados todos os meios legais de negociação. Objetiva chamar a atenção da opinião púbica para o problema, buscando solução através da modificação de leis ou da maneira como determinada política pública está caminhando. Assume, assim, a forma de chamar a atenção para um grupo de pessoas, definido este número em “significativos”, cujas queixas não surtirão efeito pelas vias legais, ou então quando o governo está na iminência de praticar algum ato injusto que irá prejudicar aquele grupo, sendo este ato, em tese, opressor de algum direito fundamental.
No método apreendido dos grandes movimentos dos anos 80 no Brasil, a alegria foi a cor primária usada em todas as suas nuances. “O povo, às claras quer a gema. A alegria é a prova dos nove", brincou mestre Florestan Fernandes no distante 1983, explicando a opção pela cor amarela das Diretas já, o maior movimento brasileiro de todos os tempos e chave que abriu a porta da República ao chamado povo, além de matriz da Era Lula.
A alegria marcou os anos de 1980 para além do simples desbunde, pois, finalmente as questões do mundo privado romperam os laços de família e se tornaram objeto da política.O alcance da felicidade pública, aquela que sentimos participando do cotidiano político, manifestando e reivindicando direitos, criando novos direitos ou varrendo o entulho autoritário, como se dizia então, para longe do presente, conferiu uma longa duração aos acontecidos naqueles anos e isso nos desembarcou no presente.
A alegria continua sendo a prova dos nove.
11 de fev. de 2010
por razões diversa ou gosto de paixão
seriam capazes de deixar rosas vermelhas
nas mãos de bronze de Drummond e Pedro Nava
plantadas à sombra do velho Métropole,
fantasma que se diverte com a cena.
A visão das rosas frescas e vermelhas
e eles conversando lá atrás.
No tempo em que eram jovens demais
para saber que ainda virariam estátuas.
O instante aberto entre o espaço e o tempo
a imaginação, o sexto e mais forte dos sentidos
e lá estavam os dois jovens, a subir a Rua da Bahia.
Vitrais, pardais, azul do céu e dourados em esquinas.
O vento guia o cheiro das rosas em direção ao presente.
29 de jan. de 2010

Dubai derrete capitalista e sórdida
como o gelo no deserto da sua geografia.
Babilônia coberta com a vergonha
das muitas tribos que ergueram suas muralhas
de passaportes, aviões e hotéis .
A destruição de tudo que é sólido
ameaça de verdade e lança um bafo quente
de morte sobre os mares.
A fúria desperta dos Titãs
cairá sobre as tolas criaturas,
que sequer entendem como acionaram
a máquina do mundo.
Gaia vê seus filhos
perdidos nos labirintos de si mesmo,
prisioneiros dos desejos ilimitados pelas mercadorias
e eles atiram-se como cães famintos sobre sua pobre carne.
A vida não segue mais o curso dos rios
roubados para produzir a energia
que move a vida virtual
construída para justificar as horas.
A borboleta que bateu asas em Dubai atingiu o Haiti.
E a miséria explodiu em terremotos de corpos, todos negros.
Enquanto isso no alto da torre de poder, o presidente quase preto
ordenou o genocídio: foi preciso esperar três dias para mandar seus soldados ocuparem.
Tempo necessário para que os que estavam sob os escombros
morressem de sede.
Tempo necessário para não fingir socorro e virar ocupação militar.
Os ciborgs tomaram a cidade destruída
e apontam agora os olhos de rapina para as vizinhas Cuba e Venezuela
enquanto os lamentos dos que cantam seus mortos
evocam os deuses antigos
que parecem não ouvir mais vozes tão fracas:
"Reze pelo Haiti".
25 de jan. de 2010
Cores do sertão
A luz transforma a cor em atração aos sentidos:.
impressão, sertão, imaginação.
Rio correndo
chuva, chuva.
Vôos de garças, gavião,
morros, longes, espaços que pegam a conversar com a alma do capiau,
E ele, bom de ouvido e de memória, guarda histórias que gosta de contar em beira de fogo,
em rodas de café.
Verdade? Diz que foi...
E assim, de causo em caso ,
prossegue sertão.
Espantos e quebrantos
Cerrado, morada da mãe das águas e dos manancias,
Explode em cores e flores cumprindo o ciclo da vida:
o tempo é serpente que engole o próprio rabo.
(Fotos: Margareth Franklin - janeiro 2010.
Cordisburgo - MG)
8 de jan. de 2010
A dor da gente não sai no jornal
Léo morreu fuzilado na Barragem Santa Lúcia na noite do ano novo. Tinha 18 anos e tinha ido passar as festas de fim de ano na casa da tia que mora por lá. Vivia com os pais e os irmãos em Ribeirão das Neves, era um menino querido por todos, não usava drogas, nunca cometeu qualquer ato violento e era um bom aluno.
Na noite em que morreu ele e suas primas foram dançar no baile funk da favela. Estava animado e cheio de planos para o ano que começava. Mas o pessoal do tráfico da parte de cima da Barragem confundiu Léo com o irmão mais novo do chefe do movimento da parte de baixo da favela. Em guerra há muito tempo a turma da Bolívia não pisa no alto da Barragem e vice-versa. Léo deu azar e os caras de cima não tardaram em mandar balas que acertaram a cabeça e o rosto do rapaz. Só bastante tempo depois viram que foi um vacilo, que eles pegaram o “alemão” errado.
Léo talvez vire estatística, talvez não, pois cada vez mais as estatísticas são peças de ficção e num ano eleitoral o importante é reafirmar a eficácia das medidas de segurança pública e de redução da criminalidade. Como é só um garoto anônimo certamente não haverá qualquer empenho em pegar seus assassinos. Afinal, morto no baile funk , para a polícia é só um marginal a menos. Além disso, quem vai se importar com um menino pobre baleado?
Os que viram como aconteceu vão ficar calados, pois essa é a lei da favela e manda o medo que o silêncio pesado abafe o fato até o esquecimento. Também são tantos os meninos que morrem por causa da guerra que eles não conseguem mesmo se lembrar de todos. Além da família, poucos vão chorar por ele.
Mas eu posso inventar que Léo não será nunca esquecido. Que do seu corpo menino plantado no chão do cemitério pobre de Ribeirão das Neves nascerá uma árvore enorme cujos galhos abrigarão ninhos de aves migratórias que sabem dos segredos do mundo inteiro. Quando elas chegarem, suas histórias serão ouvidas e quando partirem levarão os sonhos do rapaz para espalhar por terras distantes, como se fossem as sementes da árvore que plantarão por onde andarem. São sonhos de paz, cantam as aves.
Posso também inventar que na primavera a árvore se cobrirá de flores tão lindas que farão inveja às borboletas que moram por ali. E nas noites de frio, o vento que vem das montanhas passará de mansinho em volta da árvore, pois sabe que ali mora um deus menino que não deve ser incomodado em seu sono.
Porque certa vez eu ouvi que quando chegar o tempo em que tudo falhar e nem a história puder guardar a memória dos seres, ainda restará a poesia, como esperança última, como nossa última chance.
Que sua vida tão curta vire poesia, menino. Para não esquecermos nunca...
(publicado no jornal O Tempo de 12/01/2010)
19 de dez. de 2009
Série “ Cinco daguerreótipos de dois Nacnenucks (Botocudos) do acervo da Coleção Jacquart, guardada na Photothèque do Museu do Homem, em Paris - 1844. Os daguerreótipos foram feitos em Paris, para onde os índios foram levados. Nessa época os Botocudos do Leste mineiro, em guerra contra o Império, eram considerados um inimigo perigoso a ser eliminado.
Os índios conseguiram, à sua maneira e com seu corpo, contar sua história sem palavras.
Os índios conseguiram, à sua maneira e com seu corpo, contar sua história sem palavras.
Que em 2010 os desejos nos guiem! Sim, eu posso !!!
"Em termos bíblicos, parece que estão nos oferecendo 30 peças de prata para trair o nosso povo. Nosso futuro não está à venda. Lamento informá-lo de que Tuvalu não pode aceitar este documento", disse o representante do pequeno país insular ao recusar o documento sobre o clima proposto na conferência de Copenhagen.
18 de dezembro de 2009. Para mim a conferência sobre o clima foi francamente vitoriosa e é desconstruindo com a ação o discurso hegemônico que conseguiremos construir uma outra narrativa, para além da ficção globalitária, desenvolvimentista, tecnológica, patriótica, nacionalista, estatal , de partidos, enfim, de todas as vozes do capital que em coro decidem nossos destinos e nos colocam em rota de colisão com o futuro.
O mundo não pertence às empresas que nos destroem sob a bandeira de nações que apenas são espectros de poderes muito pouco compartilhados e excessivamente opressivos.
A derrota de um acordo é a melhor coisa que poderia ter acontecido, pois desmascara o falso da proposta dos dois maiores responsáveis pela catástrofe: China e EUA, gafanhotos vorazes a tirar do planeta o que podem na sua ânsia de produzir lixo.
Os próximos anos devem ser de muita ação e gloriosamente, os militantes, os que lutam, voltam a aparecer em massa, em Copenhagen e aqui, desafinando o coro dos contentes, gritando, raça anã de humanos, corpo frágil e minúsculo contra Cila e Caríbde,
Esse é o tempo da desobediência civil, do movimento crescente das maiorias, das grandes marchas em defesa da vida. Só assim nos salvaremos e poderemos "plantar e produzir nova cultura". Acredito que o reino da necessidade não prevalecerá sobre o reino da liberdade. Descobrimos que temos muito mais do que precisamos. Repartir é que é o problema. Repartir o conhecimento, a comida, a energia, os recursos, a fé, a esperança.
De Tuvalu para o mundo: a nova ordem começa em cada um para depois ser construída por todos. É uma questão de desejo.
Que em 2010 os desejos nos guiem! Sim, eu posso !!!
Tuvalu: país ameaçado pelo aumento do nível do mar.
18 de dezembro de 2009. Para mim a conferência sobre o clima foi francamente vitoriosa e é desconstruindo com a ação o discurso hegemônico que conseguiremos construir uma outra narrativa, para além da ficção globalitária, desenvolvimentista, tecnológica, patriótica, nacionalista, estatal , de partidos, enfim, de todas as vozes do capital que em coro decidem nossos destinos e nos colocam em rota de colisão com o futuro.
O mundo não pertence às empresas que nos destroem sob a bandeira de nações que apenas são espectros de poderes muito pouco compartilhados e excessivamente opressivos.
A derrota de um acordo é a melhor coisa que poderia ter acontecido, pois desmascara o falso da proposta dos dois maiores responsáveis pela catástrofe: China e EUA, gafanhotos vorazes a tirar do planeta o que podem na sua ânsia de produzir lixo.
Os próximos anos devem ser de muita ação e gloriosamente, os militantes, os que lutam, voltam a aparecer em massa, em Copenhagen e aqui, desafinando o coro dos contentes, gritando, raça anã de humanos, corpo frágil e minúsculo contra Cila e Caríbde,
Esse é o tempo da desobediência civil, do movimento crescente das maiorias, das grandes marchas em defesa da vida. Só assim nos salvaremos e poderemos "plantar e produzir nova cultura". Acredito que o reino da necessidade não prevalecerá sobre o reino da liberdade. Descobrimos que temos muito mais do que precisamos. Repartir é que é o problema. Repartir o conhecimento, a comida, a energia, os recursos, a fé, a esperança.
De Tuvalu para o mundo: a nova ordem começa em cada um para depois ser construída por todos. É uma questão de desejo.
Que em 2010 os desejos nos guiem! Sim, eu posso !!!
28 de nov. de 2009
"Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilônia, tantas vezes destruída,
Quem outras tantas a reconstruiu?
Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros?
A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo.
Quem os ergueu?
Sobre quem
Triunfaram os Césares?
A tão cantada Bizâncio
Só tinha palácios
Para os seus habitantes?
Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.
O jovem Alexandre conquistou as Índias
Sozinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou.
E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos
Quem mais a ganhou?
Em cada página uma vitória.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?
Tantas histórias
Quantas perguntas ."
(Perguntas de um operário que lê - Bertold Brecht)
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilônia, tantas vezes destruída,
Quem outras tantas a reconstruiu?
Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros?
A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo.
Quem os ergueu?
Sobre quem
Triunfaram os Césares?
A tão cantada Bizâncio
Só tinha palácios
Para os seus habitantes?
Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.
O jovem Alexandre conquistou as Índias
Sozinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou.
E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos
Quem mais a ganhou?
Em cada página uma vitória.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?
Tantas histórias
Quantas perguntas ."
(Perguntas de um operário que lê - Bertold Brecht)
21 de nov. de 2009

Um Artista da Fome
Franz Kafka
Nas últimas décadas o interesse pelos artistas da fome; diminuiu bastante. Se antes compensava promover, por conta própria, grandes apresentações desse gênero, hoje isso é completamente impossível. Os tempos eram outros. Antigamente toda a cidade se ocupava com os artistas da fome: a participação aumentava a cada dia de jejum; todo mundo queria ver o jejuador no mínimo uma vez por dia; nos últimos, havia espectadores que ficavam sentados dias inteiros diante da pequena jaula; também à noite se faziam visitas cujo efeito era intensificado pela luz de tochas; nos dias de bom tempo a jaula era levada ao ar livre e o artista mostrado especialmente às crianças. (...)
Franz Kafka
Nas últimas décadas o interesse pelos artistas da fome; diminuiu bastante. Se antes compensava promover, por conta própria, grandes apresentações desse gênero, hoje isso é completamente impossível. Os tempos eram outros. Antigamente toda a cidade se ocupava com os artistas da fome: a participação aumentava a cada dia de jejum; todo mundo queria ver o jejuador no mínimo uma vez por dia; nos últimos, havia espectadores que ficavam sentados dias inteiros diante da pequena jaula; também à noite se faziam visitas cujo efeito era intensificado pela luz de tochas; nos dias de bom tempo a jaula era levada ao ar livre e o artista mostrado especialmente às crianças. (...)
Quando as testemunhas se recordavam dessas cenas, alguns anos mais tarde, muitas vezes não compreendiam a si mesmas. Pois nesse meio tempo interveio a virada já referida; isso aconteceu quase de repente; devia haver motivos mais profundos, mas quem iria se preocupar em descobri-los? Seja como for, o mimado artista da fome se viu um dia abandonado pela multidão ávida de diversão que preferia afluir a outros espetáculos.
14 de nov. de 2009

Mulher no espelho
Cecília Meireles
Hoje que seja esta ou aquela,
pouco me importa.
Quero apenas parecer bela,
pois, seja qual for, estou morta.
Já fui loura, já fui morena,
Já fui Margarida e Beatriz.
Já fui Maria e Madalena
Só não pude ser como quis.
Que mal faz, esta cor fingida
do meu cabelo, e do meu rosto,
se tudo é tinta: o mundo, a vida,
o contentamento, o desgosto?
Por fora, serei como queira
a moda, que me vai matando.
Que me levem pele e caveira
ao nada, não me importa quando.
Mas quem viu, tão dilacerados,
olhos, braços e sonhos seus,
e morreu pelos seus pecados,
falará com Deus
Falará, coberta de luzes,
do alto penteado ao rubro artelho.
Porque uns expiram sobre cruzes,
outros, buscando-se no espelho.
7 de nov. de 2009

CLARICE LISPECTOR E OS INTELECTUAIS NO ESTADO NOVO: ITINERÁRIOS DE UMA APRENDIZAGEM
Como os demais intelectuais de sua geração, a jovem Clarice Lispector, quando iniciou sua obra literária, foi marcada pelos acontecimentos que abalaram o Brasil e o mundo nos anos de 1939 a 1945. Nesse período, ela, além de publicar seus primeiros escritos, estudou Direito na Universidade do Brasil, trabalhou na redação da Agência de Notícias do DIP, o poderoso Departamento de Imprensa e Propaganda do governo e depois no jornal A Noite.
Esses anos coincidem exatamente com os tempos sombrios da Segunda Guerra Mundial e do Estado Novo, período autoritário na história brasileira sob o comando de Getúlio Vargas. Esse contexto histórico foi marcado também por intenso debate sobre projetos para o Brasil que influenciavam a vida intelectual de então e que se refletiram no cotidiano acadêmico e profissional da autora, envolvendo também os círculos com os quais convivia.
A maioria dos intelectuais de então, na condição de funcionários públicos e/ou beneficiários do mecenato oficial, dependia diretamente do governo e defendia seus interesses reforçando as “panelas” da burocracia as quais estavam vinculados. O governo de Getúlio Vargas soube muito bem tirar proveito da participação dos intelectuais de diversos matizes políticos e ideológicos nas diversas funções que desempenhavam em seu projeto de cultura política, usado para justificar o processo de modernização conservadora que implementava no país. Tal projeto foi capaz de unir antigas elites oligárquicas agora travestidas de modernas e industriais, além do capital multinacional, especialmente norte-americano, e obter o apoio das amplas massas populares conquistadas especialmente com a outorga de direitos sociais.
A participação diferenciada dos muitos intelectuais que se envolveram com esse projeto de construção nacional, seja por concordância ideológica com o regime, por crença no seu papel de protagonista na montagem de um Estado de Bem Estar Social ou por mera necessidade de sobreviver num cenário ainda de poucas oportunidades de trabalho, teve consequências duradouras na construção de uma sociedade civil autônoma no Brasil. Nesse sentido, é impossível omitir o papel dos intelectuais no Brasil de ontem, mas principalmente no país que ainda hoje vive o descompasso entre ser moderno e ostentar estatísticas que denunciam a maior desigualdade social do mundo. A tradição de alheamento da maioria da população do mundo público continua cobrando seu tributo e uma sombra parece projetada sobre a cidadania, confundindo direitos com ajuda, público com privado, interesses com virtudes políticas, numa história que continua “sem autores e responsabilidades” (TELLES, 199, p. 103).
Apesar de também trabalhar para o governo Vargas, Clarice Lispector colocou desde os seus primeiros escritos, questionamentos explícitos sobre os modelos hegemônicos de representação, da identidade, da cultura e das relações sociais e preferiu aventurar-se pela errância de personagens em busca de sua autoidentidade, elegendo temáticas relacionadas à consciência individual e aos estados subjetivos no qual a fragmentação dos episódios traduzia um olhar sobre a realidade tributário da ficção moderna. Essa opção foi estranhamente lida por parte da crítica literária como descolada de vínculos com a realidade, do compromisso social ou engajamento político e contribuiu com generalizações como a do predomínio de uma escrita intimista ou psicológica em relação às suas obras. Clarice chegou mesmo a ser considerada uma “alienada” por alguns críticos.
Porém, ao enfrentar a tradição autoritária de mando e obediência na opção principal que fez em sua obra por narrar histórias de mulheres e a outros seres desvalorizados e invisíveis para a história oficial da nação imaginada por suas elites, Clarice escancarou o peso do esquecimento que condena as maiorias ao silêncio e às múltiplas exclusões, sem direitos e sem memória.
Se o poder de lembrar foi responsável pela construção da forte tradição que considera a nação como a forma mais acabada de um grupo e a memória nacional, a forma mais completa de uma memória coletiva, a escrita de Clarice subverteu essa lógica expondo indivíduos e grupos excluídos, marginalizados e considerados como minorias, revelando verdadeiras “memórias subterrâneas” que, como parte das culturas dominadas, opõem-se à "memória oficial", no caso, à memória nacional (POLLAK, 1989). Fez isso promovendo uma verdadeira ruptura temática e formal em relação aos padrões literários vigentes. Essa experiência foi realizada no seu primeiro romance com Joana, personagem de Perto do coração selvagem (1943), que aprende ao longo de seu itinerário a voar para além das cadeias que a prendiam à escassa realidade reservada às mulheres.
Diferentemente do sentido que guiou a modernização conservadora no Brasil, a obra de Clarice desafiou o domínio hegemônico contido no conceito de “progresso quantitativo” e a ele opôs o “progresso qualitativo” do indivíduo, sua aprendizagem, para usar uma palavra cara à autora (SANTIAGO, 1999). O desenvolvimento racional e seu aprimoramento técnico perdem para o registro das indagações íntimas dos humanos sob o impacto das suas relações com a realidade sensível. Essa é a aprendizagem que propõe aos seus leitores, que experimentam outro tipo de conhecimento e são capazes de ir além dos sentidos imediatos oferecidos pelo presente para acompanhá-la na viagem ao selvagem coração da vida.
Referências:
POLLAK, Michael. Memória, Esquecimento, Silêncio. Revista Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v.2, n.3, 1989. p. 3-15.
SANTIAGO, Silviano. A Aula inaugural de Clarice. in: MIRANDA, Wander Melo (org.) Narrativas da Modernidade . Belo Horizonte, Autêntica, 1999
TELLES, Vera da Silva. Direitos Sociais: afinal do que se trata? Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1999.
(Margareth Cordeiro Franklin - publicado no jornal Estado de Minas em 07/11/2009)
Como os demais intelectuais de sua geração, a jovem Clarice Lispector, quando iniciou sua obra literária, foi marcada pelos acontecimentos que abalaram o Brasil e o mundo nos anos de 1939 a 1945. Nesse período, ela, além de publicar seus primeiros escritos, estudou Direito na Universidade do Brasil, trabalhou na redação da Agência de Notícias do DIP, o poderoso Departamento de Imprensa e Propaganda do governo e depois no jornal A Noite.
Esses anos coincidem exatamente com os tempos sombrios da Segunda Guerra Mundial e do Estado Novo, período autoritário na história brasileira sob o comando de Getúlio Vargas. Esse contexto histórico foi marcado também por intenso debate sobre projetos para o Brasil que influenciavam a vida intelectual de então e que se refletiram no cotidiano acadêmico e profissional da autora, envolvendo também os círculos com os quais convivia.
A maioria dos intelectuais de então, na condição de funcionários públicos e/ou beneficiários do mecenato oficial, dependia diretamente do governo e defendia seus interesses reforçando as “panelas” da burocracia as quais estavam vinculados. O governo de Getúlio Vargas soube muito bem tirar proveito da participação dos intelectuais de diversos matizes políticos e ideológicos nas diversas funções que desempenhavam em seu projeto de cultura política, usado para justificar o processo de modernização conservadora que implementava no país. Tal projeto foi capaz de unir antigas elites oligárquicas agora travestidas de modernas e industriais, além do capital multinacional, especialmente norte-americano, e obter o apoio das amplas massas populares conquistadas especialmente com a outorga de direitos sociais.
A participação diferenciada dos muitos intelectuais que se envolveram com esse projeto de construção nacional, seja por concordância ideológica com o regime, por crença no seu papel de protagonista na montagem de um Estado de Bem Estar Social ou por mera necessidade de sobreviver num cenário ainda de poucas oportunidades de trabalho, teve consequências duradouras na construção de uma sociedade civil autônoma no Brasil. Nesse sentido, é impossível omitir o papel dos intelectuais no Brasil de ontem, mas principalmente no país que ainda hoje vive o descompasso entre ser moderno e ostentar estatísticas que denunciam a maior desigualdade social do mundo. A tradição de alheamento da maioria da população do mundo público continua cobrando seu tributo e uma sombra parece projetada sobre a cidadania, confundindo direitos com ajuda, público com privado, interesses com virtudes políticas, numa história que continua “sem autores e responsabilidades” (TELLES, 199, p. 103).
Apesar de também trabalhar para o governo Vargas, Clarice Lispector colocou desde os seus primeiros escritos, questionamentos explícitos sobre os modelos hegemônicos de representação, da identidade, da cultura e das relações sociais e preferiu aventurar-se pela errância de personagens em busca de sua autoidentidade, elegendo temáticas relacionadas à consciência individual e aos estados subjetivos no qual a fragmentação dos episódios traduzia um olhar sobre a realidade tributário da ficção moderna. Essa opção foi estranhamente lida por parte da crítica literária como descolada de vínculos com a realidade, do compromisso social ou engajamento político e contribuiu com generalizações como a do predomínio de uma escrita intimista ou psicológica em relação às suas obras. Clarice chegou mesmo a ser considerada uma “alienada” por alguns críticos.
Porém, ao enfrentar a tradição autoritária de mando e obediência na opção principal que fez em sua obra por narrar histórias de mulheres e a outros seres desvalorizados e invisíveis para a história oficial da nação imaginada por suas elites, Clarice escancarou o peso do esquecimento que condena as maiorias ao silêncio e às múltiplas exclusões, sem direitos e sem memória.
Se o poder de lembrar foi responsável pela construção da forte tradição que considera a nação como a forma mais acabada de um grupo e a memória nacional, a forma mais completa de uma memória coletiva, a escrita de Clarice subverteu essa lógica expondo indivíduos e grupos excluídos, marginalizados e considerados como minorias, revelando verdadeiras “memórias subterrâneas” que, como parte das culturas dominadas, opõem-se à "memória oficial", no caso, à memória nacional (POLLAK, 1989). Fez isso promovendo uma verdadeira ruptura temática e formal em relação aos padrões literários vigentes. Essa experiência foi realizada no seu primeiro romance com Joana, personagem de Perto do coração selvagem (1943), que aprende ao longo de seu itinerário a voar para além das cadeias que a prendiam à escassa realidade reservada às mulheres.
Diferentemente do sentido que guiou a modernização conservadora no Brasil, a obra de Clarice desafiou o domínio hegemônico contido no conceito de “progresso quantitativo” e a ele opôs o “progresso qualitativo” do indivíduo, sua aprendizagem, para usar uma palavra cara à autora (SANTIAGO, 1999). O desenvolvimento racional e seu aprimoramento técnico perdem para o registro das indagações íntimas dos humanos sob o impacto das suas relações com a realidade sensível. Essa é a aprendizagem que propõe aos seus leitores, que experimentam outro tipo de conhecimento e são capazes de ir além dos sentidos imediatos oferecidos pelo presente para acompanhá-la na viagem ao selvagem coração da vida.
Referências:
POLLAK, Michael. Memória, Esquecimento, Silêncio. Revista Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v.2, n.3, 1989. p. 3-15.
SANTIAGO, Silviano. A Aula inaugural de Clarice. in: MIRANDA, Wander Melo (org.) Narrativas da Modernidade . Belo Horizonte, Autêntica, 1999
TELLES, Vera da Silva. Direitos Sociais: afinal do que se trata? Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1999.
(Margareth Cordeiro Franklin - publicado no jornal Estado de Minas em 07/11/2009)
5 de nov. de 2009
VIVA MARIGHELLA QUE VIVE EM TODOS NÓS!!
"Fica um pouco de teu queixo No queixo de tua filha.
Do teu áspero silêncio
um pouco ficou,
um pouco nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.
Fica um pouco de tudo.
No pires de porcelana,
dragão partido, flor branca.
ficou um pouco de ruga na vossa testa,
retrato.(...)
De tudo ficou um pouco.
E de tudo fica um pouco.
Oh, abre os vidros de loção,
E abafa o insuportável mau cheiro da memória."
(Carlos Drummond de Andrade)
3 de nov. de 2009
28 de out. de 2009
O beijo de Klimt

O beijo de Klimt.
Desde que li um texto de autoria do grande professor João Antonio de Paula sobre os dourados de Klimt para falar do crepúsculo de Belo Horizonte, passei a me interessar pelo artista .
No caso de O beijo (1907), o dourado banha todo o quadro e está presente no manto do homem e no vestido da mulher, construindo verdadeira moldura para a delicadeza dos corpos desenhados e do beijo prometido entre o casal. Delicados, os dourados se unem em horizontes de mil delícias enquanto os amantes anunciam o beijo que virá. O artista acentua os lábios da mulher que vai receber o beijo em perfeito estado de entrega ao homem que abraça seu corpo. Porém, os amantes fundem mais que as almas apaixonadas no detalhe da cor da pele diferenciada.
Klimt, capaz de uma leitura generosa da riqueza das diferenças, é bem direto na sua defesa da mistura das raças. Os detalhes como o tapete, o manto, a cor da pele, o porte do homem sugerem um não europeu, talvez um árabe, um oriental. O homem é grande, forte e a mulher, ao contrário, é branca, delicada e se entrega ao beijo com a mesma força que o homem e existe entre eles uma comunicação tão evidente do desejo compartilhado que deve fazer desse quadro alguma espécie de citação obrigatória dos estudos sobre erotismo.
A beleza do quadro é exatamente a delicadeza. A combinação perfeita entre amor e delicadeza transforma O beijo na promessa feita entre as diferenças para que a paz seja a certeza entre os povos. O desejo dessa fusão pressentida no quadro é um apelo à mistura entre os povos da terra até finalmente sermos uma só humanidade cheia de diferenças. Mais que qualquer detalhe, sãos as mãos que demonstram essa intenção do artista: as do homem que seguram a cabeça da mulher. As dela, uma apoiando-se sobre a mão do homem e a outra, abraçando seu pescoço.
Klimt, com mãos mágicas, constrói no seu quadro uma utopia, uma possibilidade de sonhar. E o amor entre o homem e a mulher é também metáfora do amor entre todos, rico, dourado, solar.
Desde que li um texto de autoria do grande professor João Antonio de Paula sobre os dourados de Klimt para falar do crepúsculo de Belo Horizonte, passei a me interessar pelo artista .
No caso de O beijo (1907), o dourado banha todo o quadro e está presente no manto do homem e no vestido da mulher, construindo verdadeira moldura para a delicadeza dos corpos desenhados e do beijo prometido entre o casal. Delicados, os dourados se unem em horizontes de mil delícias enquanto os amantes anunciam o beijo que virá. O artista acentua os lábios da mulher que vai receber o beijo em perfeito estado de entrega ao homem que abraça seu corpo. Porém, os amantes fundem mais que as almas apaixonadas no detalhe da cor da pele diferenciada.
Klimt, capaz de uma leitura generosa da riqueza das diferenças, é bem direto na sua defesa da mistura das raças. Os detalhes como o tapete, o manto, a cor da pele, o porte do homem sugerem um não europeu, talvez um árabe, um oriental. O homem é grande, forte e a mulher, ao contrário, é branca, delicada e se entrega ao beijo com a mesma força que o homem e existe entre eles uma comunicação tão evidente do desejo compartilhado que deve fazer desse quadro alguma espécie de citação obrigatória dos estudos sobre erotismo.
A beleza do quadro é exatamente a delicadeza. A combinação perfeita entre amor e delicadeza transforma O beijo na promessa feita entre as diferenças para que a paz seja a certeza entre os povos. O desejo dessa fusão pressentida no quadro é um apelo à mistura entre os povos da terra até finalmente sermos uma só humanidade cheia de diferenças. Mais que qualquer detalhe, sãos as mãos que demonstram essa intenção do artista: as do homem que seguram a cabeça da mulher. As dela, uma apoiando-se sobre a mão do homem e a outra, abraçando seu pescoço.
Klimt, com mãos mágicas, constrói no seu quadro uma utopia, uma possibilidade de sonhar. E o amor entre o homem e a mulher é também metáfora do amor entre todos, rico, dourado, solar.
(Margareth Franklin)
18 de out. de 2009

"O 'Parangolé' é não só a superação definitiva do quadro, como a proposição de uma estrutura nova do objeto-arte, uma nova reestruturação da visão espacial da obra de arte, superando também a contradição das categorias 'pintura e escultura'. Na verdade ao propor uma arte ambiental não quero sair do 'quadro' para a 'escultura', mas fundar uma nova condição estrutural do objeto que já não admite essas categorias tradicionais" (Hélio Oiticica 1930- 1980)

Hélio, o sol, explodiu em cores nos anos cinzentos do Brasil. Parangolés voadores emprestavam a leveza que faltava para alimentar os sonhos radicais de transformação. Hoje, anos depois, acordamos mais pobres, pois um incêndio (17/10) destruiu 90% das obras desse artista inquieto e genial.
16 de out. de 2009

“Meu inimigo é Minas Gerais.
O punhal que eu levanto, com a aprovação ou não de quem quer que seja é contra Minas Gerais. Que me entendam bem: contra a família mineira. Contra a literatura mineira. Contra o jesuitismo mineiro. Contra a religião mineira. Contra a concepção de vida mineira. Contra a fábula mineira. Contra o espírito judaico e bancário que assola Minas Gerais. Enfim, contra Minas, na sua carne e no seu espírito.” LÚCIO CARDOSO (1913-1968)
12 de out. de 2009
As imagens de um trator destruindo uma fileira de pés de laranja plantados por uma grande empresa exportadora de suco em terras griladas do governo no interior de São Paulo e exaustivamente repetidas pela televisão serviram de álibi para mais uma ofensiva da bancada dos latifundiários no Congresso Nacional contra o MST. Unidos, latifundiários da terra e da mídia, têm produzido vasto material para mobilizar a opinião pública contra o Movimento dos Sem Terra, invocando sempre a tese do estado de direito, no caso a defesa das eternas plantations nacionais que sempre combinaram legalmente trabalho escravo, latifúndio e monocultura para o benefício dos partidários dessa suposta legalidade.
É bom lembrar que a senadora Kátia Abreu (DEM/PA), porta voz do latifúndio, meses atrás, ocupou os microfones das redes nacionais de televisão para justificar a existência abjeta de trabalho escravo no Norte do país alegando que as condições da região tornavam necessária essa “flexibilização” na legislação trabalhista. Ninguém pediu a prisão da Senadora pelo desrespeito flagrante ao estado de direito, nem propôs, como seria razoável num país que respeitasse suas leis, a perda imediata do seu mandato por flagrante delito e quebra do juramento prestado de defender a ordem constitucional.
Mas a ação do MST ao derrubar laranjas, incomodar os grileiros e recolocar o debate sobre o estado de direito foi importante porque incomodou os que fingem viver na normalidade diante da permanência da anomia generalizada no país de maior desigualdade social do mundo. O que é ilegal? Uma ação contra uma fileira de pés de laranja plantados em terras roubadas do poder público ou a fala da senadora ao defender o trabalho escravo e o desrespeito aos direitos humanos? Certamente a ação do MST foi radical e absolutamente simbólica, já o trabalho escravo...
O MST tem conseguido com ações espetaculares desse tipo desafinar o coro dos contentes, como dizia o poeta, e na prática conduzir o processo de reforma agrária de forma infinitamente mais pacífica do que em outros países onde apenas revoluções violentas puderam alterar a estrutura fundiária. O MST não usa armas, mas constrói uma escola em cada ocupação que faz e educa seus militantes para lutar pelos seus direitos. Na verdade, são essas ações que tornam o Movimento respeitado em todo o mundo, revigoram a luta política e ampliam o espaço de liberdade.
Por isso não há como não fazer uma analogia com o filme Salve Geral ! esse sim, retrato do Brasil que acontece todo dia, quando não há mais referência de certo ou errado e bandidos e polícia se confundem no mesmo mar de sangue, de violência, de corrupção generalizada. Não é possível saber o que é crime ou o que é estado de direito no filme e essa intenção bem sucedida do diretor Sergio Rezende é o fio que conduz a narrativas sobre os acontecimentos de maio de 2006, quando São Paulo parou devido aos ataques do PCC à cidade.
A organização criminosa com suas estreitas ligações no sistema prisional, no judiciário e nas forças policiais se apropria do discurso da esquerda e fala em revolução, organização, liberdade e justiça. No filme é evidente que é esse o discurso que mobiliza os jovens da periferia, sem perspectivas e sem igualdade de oportunidades, que a cada dia nas grandes cidades do país engrossam a fileira do tráfico e do crime organizado.
Infelizmente, cumprindo a tradição literária brasileira, o filme não escapa à idealização dos criminosos e os chefes do PCC são transformados em bons bandidos, quase heróis populares capazes de vingar a opressão vivida no falido sistema carcerários praticando ações contrárias à ordem que o produz. Entretanto, o PCC e outras organizações criminosas são movidas pelo tráfico de armas, de drogas, assaltos e assassinatos que nada têm de idealizados e com certeza se opõe flagrantemente ao estado de direito.
O que a imprensa e as autoridades não falam é que os milhares de jovem pobres que integram o MST escapam pela consciência política e pela luta pela terra de se tornarem mais um nas organizações criminosas que dominam as periferias ante a impotência governamental. A esses jovens a proposta do MST é clara: trata-se de garantir a educação para a cidadania, a unidade entre iguais na luta por direitos roubados.
O MST, mais do que qualquer discurso, tem conseguido dar esperança de dignidade para crianças, jovens, mulheres e homens originários do Brasil profundo e ao fazê-lo, escancara o debate da violência urbana, da inviabilidade das grandes cidades presas do medo e da violência: a questão urbana passa pela reforma agrária. Utilizando muitas vezes um método consagrado pela própria teoria liberal, a desobediência civil, o direito de rebelar-se quando a vida está ameaçada, o MST sem pregar a violência, é às vezes obrigado a derramar um pouco de suco de laranja, antes que a esperança se torne um bagaço na mão dos que sempre lucraram com a exploração.
(Margareth Franklin )
7 de out. de 2009

Lucio Fontana, artista italiano: (1899-1968) " Como pintor não quero fazer um quadro; desejo abrir o espaço, criar uma nova dimensão para além do plano confinado do quadro."


"Não intento decorar uma superfície mas, ao contrário, romper suas limitações dimensionais. Para lá das perfurações, uma nova liberdade conquistada de interpretações nos espera, embora também, tão certa como o fim da arte"
A Arte rompe com todos os seus limites, embora arrisque nessa ruptura seu aniquilamento (Mário Pedrosa, crítico brasileiro, 1900-1981) 
4 de out. de 2009
Papagaios de seda no céu. Vento seco
Desejos de comunicar o silêncio.
Silêncios são sons que ouvimos.
Ouvir o silêncio é diferente de ouvir os pensamentos.
Pensamentos são barulhos no silêncio, mais que as aves, os grilos, o vento
Arrepios vag
os, sons de longe, bambus, bambuzal sagrado em beira de vereda: vi? Não vi? Outro dia ainda e escutei as velhas histórias, não foi? Inda perguntava assim no pensamento, agilidade de enredar o leitor ouvinte: não é essa a força? Essa, a de enredar quem lê em conversação- prosa com alguém
Bambus são plantas sagradas como as outras todas, queria saber por indagar desses assuntos com Fubá, quem mais entende de artes mágicas, embora, solerte e mineiríssimo, escorregue sempre , escapando de qualquer aprofundamento e quando fala, disfarça que é antropólogo.
Bambus no quente e seco do sertão, sombra, beirada de vau, quero-quero, frango d’água, gavião em roda por cima, espiando o ajuntamento de povo em baixo, como cobra, andando em fila na picada do mato...
Desejos de comunicar o silêncio.
Silêncios são sons que ouvimos.
Ouvir o silêncio é diferente de ouvir os pensamentos.
Pensamentos são barulhos no silêncio, mais que as aves, os grilos, o vento
Arrepios vag
os, sons de longe, bambus, bambuzal sagrado em beira de vereda: vi? Não vi? Outro dia ainda e escutei as velhas histórias, não foi? Inda perguntava assim no pensamento, agilidade de enredar o leitor ouvinte: não é essa a força? Essa, a de enredar quem lê em conversação- prosa com alguémBambus são plantas sagradas como as outras todas, queria saber por indagar desses assuntos com Fubá, quem mais entende de artes mágicas, embora, solerte e mineiríssimo, escorregue sempre , escapando de qualquer aprofundamento e quando fala, disfarça que é antropólogo.
Bambus no quente e seco do sertão, sombra, beirada de vau, quero-quero, frango d’água, gavião em roda por cima, espiando o ajuntamento de povo em baixo, como cobra, andando em fila na picada do mato...
(Margareth)
24 de set. de 2009

Começo pelo pão
No mundo dos humanos, o pão é uma invenção tão antiga como os primórdios do que chamamos civilização.
Foram as mulheres que inventaram a agricultura. A elas foi dado o poder de prestar atenção no renascimento dos grãos. E delas foi herdado o pão que de primitivo monte de farelos amassados foi se transformando até assumir as formas que conhecemos hoje.
Na minha comunidade de origem fazíamos o pão de mandioca, tapioca, finíssima farinha branca,
Como pão também o beiju de farinha: água fria, farinha, açúcar que amassados, frigideira, gotas de óleo, côco ralado, café de rapadura para acompanhar num tamborete encostado no fogão à lenha, cheiro de madeira queimando, picumã no teto, longes de fumaça que aparecem nas estradas sempre terão o gosto afetivo do beiju dos tempos difíceis: vento sul só tinha beiju...
Mas tinha também tempos de cuscuz branco, abundâncias de polvilho, côco, melado...Depois leite condensado, bem depois...
No mundo dos humanos, o pão é uma invenção tão antiga como os primórdios do que chamamos civilização.
Foram as mulheres que inventaram a agricultura. A elas foi dado o poder de prestar atenção no renascimento dos grãos. E delas foi herdado o pão que de primitivo monte de farelos amassados foi se transformando até assumir as formas que conhecemos hoje.
Na minha comunidade de origem fazíamos o pão de mandioca, tapioca, finíssima farinha branca,
Como pão também o beiju de farinha: água fria, farinha, açúcar que amassados, frigideira, gotas de óleo, côco ralado, café de rapadura para acompanhar num tamborete encostado no fogão à lenha, cheiro de madeira queimando, picumã no teto, longes de fumaça que aparecem nas estradas sempre terão o gosto afetivo do beiju dos tempos difíceis: vento sul só tinha beiju...
Mas tinha também tempos de cuscuz branco, abundâncias de polvilho, côco, melado...Depois leite condensado, bem depois...
Margareth - 2009
poeminha pós- moderno sobre a prisão de oitocentos homens no dia 8/03/08 por não pagarem a Pensão Alimentícia...
êta, trepada cara
pensam os caras
a cara do pai pensa o mundo
a vida tão cara diz a mãe.
Cana, cara de pau
Cara de mau
Cara sem sal
caracol, cada qual com seu lençol.
margareth - 08/03/2008
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