27 de jan. de 2011

ENTREPOSTO BRASIL: A REDE


Arthur Bispo do Rosário
 O Entreposto foi lugar do escambo de pequenos e grandes sonhos.
 O muro caiu. Lula perdeu. E os  anos 90 começaram com Collor, escândalos e logo depois caras pintadas e rebeldia no ar.
Com  política na alma e sonhos de uma cidade melhor, um grupo de militantes, artistas, simpatizantes, meninos de rua e anônimos em geral,  ocupou a Praça da Estação e armou um circo para conversar com a cidade sobre um novo conceito de cultura, fruto do desejo de construir uma sociedade socialista e libertária.
Essa ocupação, duramente negociada com a Prefeitura tucana da época, durou meses, até que o Entreposto, vencido por dívidas gerais de seus participantes, não resistiu, mas ajudou a vitória de Patrus Ananias, pouco tempo depois.
Principalmente legou a BH o método da arte re-ligada ao movimento. Plantada, essa semente cresceu, germinou e o circo sujo que vemos hoje no terreno consagrado aos orixás é uma ruína poderosa.
E nós ali, olhando, ou melhor, de novo conspirando.
O lançamento de um Entreposto (clique e leia mais) dia 25/02/2011, reúne novos e velhos personagens do Entreposto de 1990, armados até os dentes com a parafernália virtual para conquistar o ciberespaço e lançar de novo idéias ao vento.
Enquanto isso, os meninos da Praia da Estação festejam o sábado.
Que Oxóssi continue abrindo nossos caminhos...

PRAIA DA ESTAÇÃO : 1 ANO

O POVO, NA PRAÇA, FAZ  ARTE

Pça da Estação - BH - 24/01/2011
 Os banhistas da  Estação reatualizam  a  política,  inventam a arte dos movimentos sociais e experimentam a alegria da participação coletiva.
Como se "vestissem" uma obra de Lygia Pape, fizeram o mar de plástico  e com seus corpos, instituiram o tempo dos humanos, não do capital. A onda azul tomou conta da cidade.
Lygia Pape
http://www.flickr.com/photos/coletivopegada/sets/72157625756883495/
http://www.youtube.com/watch?v=t1ivbE0X0Wc&feature=related 

24 de jan. de 2011

!922: Clarice Lispector

No ano de 1922  nasceu a brasileira Clarice Lispector. Ela já havia nascido antes, em algum lugar da  Ucrânia, no ano de 5680 do calendário judeu seguido por seus pais, que lhe chamaram de Haia, ou Verdade.
O seu Novo Mundo foi Maceió e depois Recife.
A experiência de nascer refugiada, apátrida, sua família em fuga devido às perseguições aos judeus, com certeza deixou marcas na sua escrita e em suas  personagens, vivendo em permanente trânsito entre o mundo real e a sua subjetividade. .
Por isso, talvez, o sentimento de pertencer tenha sido tão intenso para ela, como declara nessa crônica:

Pertencer

(...) Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém. Nasci de graça.
(...) Pertencer não vem apenas de ser fraca e precisar unir-se a algo ou a alguém mais forte. Muitas vezes a vontade intensa de pertencer vem em mim de minha própria força – eu quero pertencer para que minha força não seja inútil e fortifique uma pessoa ou uma coisa.
(...) A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver. Experimentei-o com a sede de quem está no deserto e bebe sôfrego os últimos goles de água de um cantil. E depois a sede volta e é no deserto mesmo que caminho!

22 de jan. de 2011

BIENAIS

A presença em BH de trabalhos consagrados nas bienais de São Paulo traz uma oportunidade de acesso do grande público a obras e artistas fundamentais . Traz também a certeza do tanto que já perdemos  ...

17 de jan. de 2011

BH: DORMINDO COM O INIMIGO

Temos denunciado neste blog os sucessivos atos de descaso e descompromisso da atual Administração Municipal com a cidade de Belo Horizonte  O último foi demais: a queda de uma árvore gigantesca no Parque Municipal matou uma mulher que fazia caminhada e interditou o único espaço verde do centro da cidade por 3 meses. Em meio às férias, nossa cidade tão sem alternativa perde seu principal espaço de lazer. A negligência no cuidado com o Parque precisou de uma vida para ser corrigida. Mas sem planejamento, isso será feito no período em que a cidade mais precisa do Parque.
Fala Sério!!!
Guignard - Parque Municipal de BH

16 de jan. de 2011

PARAFRASEANDO RAUL SEIXAS

Tragédia: a nova cara do verão

Essa é a época das tragédias como opresença obrigatória em sucessivos verões. Katrinas, terremotos, tsunamis, enchentes e secas são transformados no assunto principal da estação. A natureza  responde à altura todo o descaso sofrido e, na versão possível da profecia Maia, a época da sua vitória sobre a cultura parece estar se aproximando.
Dois outros profetas já haviam previsto esses acontecimentos: Karl Marx, nos idos do século XIX, afirmou que o fim do capitalismo só seria possível por suas próprias contradições. De fato, o desenvolvimento desordenado das chamadas forças produtivas,  da ciência e da técnica, mudaram a cultura. Separados da natureza, nossa vida se fundamenta no consumo dos seus recursos. A civilização que construímos está assentada na satisfação de necessidades cada vez mais inventadas e egoístas, alimentadas pelas possibilidades infinitas oferecidas pelo capital que desse círculo se alimenta e se reproduz.
Sabemos que o conceito de desenvolvimento sustentável foi pensado para tentar equilibrar e potencializar o uso dos recursos numa lógica fundada na preservação e proteção do meio ambiente. Mas isso está longe de deixar de ser apenas uma idéia e virar prática.
As conseqüências da ocupação predadora e desordenada do mundo têm produzido os graves problemas ambientais que vivemos e suas seqüelas. A fúria do clima é uma delas. Pode ser que a destruição do capital custe a civilização que construiu, movimento autofágico que explica bem as guerras, violência, pobreza e outros males sem fim que sempre existiram ao longo do seu domínio. 
Até agora  a noção arrogante que passamos, nós, os conscientes ambientais, é a de que é preciso salvar o planeta. Mas o planeta não precisa ser salvo. Quem precisa perceber a destruição são os humanos, vulneráveis a ela. O que existe  e continuará existindo é o planeta,  pois é imune ao tempo. Uma era não significa nada, quanto mais um ano ou cem.
Isso nos remete ao poeta e profeta Raul Seixas: “o planeta como um cachorro eu vejo: se ele não agüenta mais as pulgas, se livra delas num sacolejo”.

9 de jan. de 2011

Renè Magritte

Renè Magritte: uma viagem ao melhor do surrealismo (clique e acesse)

Utopias para sonhar o futuro

Dilma tomou posse (01/01/2011) beneficiada pela impressionante aprovação do país ao governo Lula. Na década que começa, o Brasil encabeça o seleto clube das potências emergentes e na proa do mundo, conduz a difícil transição para uma nova ordem. Há trinta anos estamos construindo as chances dessa liderança mundial significar a implantação de políticas econômicas e sociais que resultem na produção de uma nova cultura.
Ismael Nery
Disso falou a presidenta na posse em dia chuvoso.A água, signo feminino por excelência, manifestava no ar molhado da capital um bom presságio.A nova cultura que se dissemina mundo afora como alternativa  é a maior razão da aprovação de Lula. A construção da cidadania é cada vez  mais o parâmetro para as ações e intenções.
Porém, estamos ainda muito longe de unir prática e teoria e apreensivos assistimos a ferramenta da construção desse resultado ir a pique, contaminada pelos interesses pessoais e sua rede de intrigas, corrupção, personalismos, mentiras  e  destruição que se espalham como um câncer no Partido que levou Lula ao poder. Os quase 90% de aprovação do presidente custaram caro ao PT que, desfigurado, emplaca a sucessora de Lula dominado por grandes caudilhos de velhas e novas linhagens.
Não existe mais no PT o bom combate das tendências e grupos que, ao lutarem pelo poder, funcionavam como verdadeiras artérias a conduzir o oxigênio do debate político para o interior do corpo partidário. A federação de mandatos executivos e legislativos substituiu as velhas tendências que se abrigavam no interior do Partido.
Desde a sua fundação o PT sempre foi um guarda chuva que abrigou sob sua sigla grupos surgidos nos anos de luta contra a ditadura militar. Sua principal corrente começou encabeçada por Lula e sindicalistas paulistas. Teve vários nomes: 113,  PT de Massas, Articulação. Nomes carregados de história e lideranças que se revezaram no controle da direção partidária.
Marc Chagall
Outras tendências de menor porte mantiveram sempre com o chamado campo majoritário disputas acirradas pelo controle da máquina partidária desde o início dos anos 80. Com a chegada ao poder, ou seja, com a crescente ocupação de postos no aparelho sindical e de Estado, o PT foi sofrendo uma mutação interna capaz de transformar essas tendências e correntes fundadas em idéias,  em entourage remunerada de deputados, senadores, prefeitos, governadores.
Carimbado com a pecha terrível de ser igual aos outros, o Partido envelhece com suas direções e se submete à rotina dos funcionários em redutos  controlados por figurões  detentores de mandatos ou cargos. O debate de idéias, substituído pela prática dos favorecimentos pessoais e das vantagens materiais, teve como resultado a redução da vida política a um mero ritual de cumprimento de agendas eleitorais. Manter-se no poder passou a ser o objetivo de cada chefe político e seus seguidores. 
O prejuízo evidente para a cultura política nacional escancara um desafio claro: é preciso recuperar as utopias e com elas refazer o espaço público necessário à luta pela liberdade. Um outro mundo é possível, continuaremos acreditando.

29 de dez. de 2010

BH em cores (ipês)

Fotos:Margareth

Boas leituras em 2011

Sebo Aluados- Cataguases -MG

23 de dez. de 2010

Ascânio Lopes


Ascânio Lopes Quatorzevoltas foi um dos principais nomes do modernismo dos Verdes na cidade de Cataguases. Sua morte prematura, aos 22 anos, selou o destino do poeta, transformando-o em um mito para os jovens que além de desancarem o academicismo e as velhas e bolorentas formas poéticas dos anos 20, ligaram para sempre a cidade à vanguarda internacional das artes.
È fácil perceber porque o jovem herói dos Verdes, apesar do tempo curto que teve, tornou-se um dos poetas mais expressivos do grupo, dialogando com Drummond, Mario de Andrade e outros do seu tempo, confirmando a vocação artística da sua cidade e deixando um legado breve e precioso às gerações posteriores.
Dizem as lendas que é possível perceber o seu vulto de poeta nas madrugadas quentes , perto de uma gigantesca palmeira imperial onde cantam os sabiás de todos os exílios, inclusive os da morte, que o levou ainda menino.

Cataguazes - Ascânio Lopes

   Para Carlos Drummond de Andrade

Nem Belo Horizonte, colcha de retalhos iguais,
cidade européia de ruas retas, árvores certas,
casas simétricas,
crepúsculos bonitos, sempre bonitos;
Nem Juiz de Fora. Ruído. Rumor.
Apitos. Klaxons.
Cidade inglesa de céu enfumaçado, cheio de chaminés negras;
Nem Ouro Preto, cidade morta,
Bruges sem Rodenbach,
onde estudantes passadistas continuam a tradição das coisas
                                                                  [que já esquecemos;

Nem Sabará, cidade relíquia,
onde não se pode tocar, para não desmanchar o passado
                                                                  [arrumadinho;
Nem Estrela do Sul, a sonhar com tesouros,
tesouros nos cascalhos extintos de seu rio barrento;
Nem Uberaba, nem, nem, cidades arrivistas de gente que no
                                                                  [pretende ficar:
Não! Cataguazes... Há coisa mais bela e serena oculta nos
                                                                  [teus flancos,
Nas tuas ruas brinca a inconsciência das cidades
que nunca foram, que não cuidam de ser.
Não sabes, não sei, ninguém compreenderá jamais o que
                                                                  [desejas, o que serás,
No és do passado, não és do futuro; não tens idade...
Só sei que és
a mais mineira cidade de Minas Gerais. . .
Nem geometria, nem estilo europeu, nem invasão americana
[de bangalôs derniecri.
                                                                 
Tuas casas são largas casas mineiras feitas na previsão de
                                                                  [muitos hóspedes.
Não há em ti o terror das cidades plantadas na mata virgem.
Nem o ramerrão dos bondes atrasados, cheios de gente
                                                                  [apressada.
Nem os dísticos de aqui esteve aqui aconteceu.
Nem o tintim áspero dos padeiros.
Nem a buzina incômoda dos tintureiros.
Teus leiteiros ainda levam o leite em burricos.
Os padeiros deixam o pão á janela (cidade mineira).
Teu amanhecer é suave.
Que alegria de só ter gente conhecida faz teu habitante
[voltar-se para cumprimentar todos que passam.
Delícia de não encontrar estrangeiros de olhar agudo esperto
                            [mau, a suspeitar riquezas nas terras.
Alegria dos fordes brincando (são dois) na praça.
(Depois vão dormir juntinhos numa só garagem).
Jacaré!
João Arara!
João Gostoso!
teus tipos populares.
A criançada atira-lhes pedras e eles se voltam imprecando.
Rondas alegres de meninas nas ruas, as tardes, sem perigo
                                                                  [de veículos,
papagaios que se embaraçam nos fios de luz, balões que sobem,
foguetes obrigatórios nas festas de chegada do chefe político.
Jardins onde meninas ariscas passeiam meia hora só antes
                                                                  [do cinema.
Ar momo e sensual de voluptuosidade gostosa que vibra
nas tuas tardes chuvosas, quando as goteiras pingam nos
                                                                  [passantes
e batem isócronas nos passeios furados.
Há em ti a delícia da vida que passa porque vale a pena passar,
que passa sem dar por isso, sem supor que se vai transformando.
Em ti se dorme tranquilo sem guardas-noturnos.
Mas com o cricri dos grilos,
o ranram dos sapos,
o sono é tranquilo como o de urna criança de colo,
Vale a pena viver em ti.
Nem inquietude,
nem peso inútil de recordações
Mas a confiança que nasce das coisas que não mudam bruscas,
nem ficam eternas.

                            Poemas Cronológicos — "Verde" Editora — 1928
                            — Cataguases — págs. sem numeração.

15 de dez. de 2010

Portinari
1000 CDs de primeiríssima qualidade que resumem bem a música dos últimos 100 anos:
http://www.radio3net.ro/dbalbums/albume1001
 1- Ao colocar a seta do mouse no nome do CD, a capa do disco aparece.
2 - Clicando no nome do disco, aparece a relação
das faixas que podem ser ouvidas.
3 - Clicando na bolinha branca e preta, do lado direito do nome da faixa, aparece uma nova janela com a letra da música.

11 de dez. de 2010

Caminho do rio

Rio Pomba - Cataguases- MG


MANOEL DE BARROS

Matisse
Uma Didática da Invenção
I
Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:
a) Que o esplendor da manhã não se abre com
faca
b) 0 modo como as violetas preparam o dia
para morrer
c) Por que é que as borboletas de tarjas
vermelhas têm devoção por túmulos
d) Se o homem que toca de tarde sua existência
num fagote, tem salvação
e) Que um rio que flui entre 2 jacintos carrega
mais ternura que um rio que flui entre 2
lagartos
f) Como pegar na voz de um peixe
g) Qual o lado da noite que umedece primeiro.
Etc.
etc.
etc.
Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios.
 


IV
No Tratado das Grandezas do Ínfimo estava
escrito:
Poesia é quando a tarde está competente para
Dálias.
É quando
Ao lado de um pardal o dia dorme antes.
Quando o homem faz sua primeira lagartixa
É quando um trevo assume a noite
E um sapo engole as auroras

IX

Para entrar em estado de árvore é preciso
partir de um torpor animal de lagarto às
3 horas da tarde, no mês de agosto.
Em 2 anos a inércia e o mato vão crescer
em nossa boca.
Sofreremos alguma decomposição lírica até
o mato sair na voz.

Hoje eu desenho o cheiro das árvores.


IX

O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa
era a imagem de um vidro mole que fazia uma
volta atrás de casa.
Passou um homem depois e disse: Essa volta
que o rio faz por trás de sua casa se chama
enseada.
Não era mais a imagem de uma cobra de vidro
que fazia uma volta atrás de casa.
Era uma enseada.
Acho que o nome empobreceu a imagem.
 

29 de nov. de 2010

Território: A força militar superior permite ao Estado comemorar hoje a tomada do Complexo do Alemão e  seus amontoados 400 mil habitantes respiram o cessar fogo e um suposto reingresso à cidadania plena como brasileiros, depois de décadas de comando do tráfico sobre a comunidade. No labirinto de barracos, o território, ou seja, “o chão mais a identidade”(Milton Santos, 1999) está marcado pelo trauma da guerra e das muitas mortes, pela descrença generalizada nas promessas dos governos, pela violência cotidiana.que faz a vida ter tão pouca perspectiva. 
"existe um povo que a bandeira empresta
P'ra cobrir tanta infâmia e covardia!...
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?!...
Silêncio!... Musa! chora, chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto." (Castro Alves- Navio Negreiro)

26 de nov. de 2010

Salve Geral - Rio 2010

(Foto: FSP)
 A guerra  explode o limite tênue entre as duas cidade e mostra as suas armas sem metafísica.
Civis são galinhas correndo desgovernadas  das balas perdidas. No morro, os meninos bandidos são heróis eviesados de uma nação de pobres, feios, sujos e malvados. Estão armados e despejam balas defendendo com seus corpos a satisfação da burguesia entediada que busca na droga o prazer difícil em sua vidas repetidas e cheias de hipócrita normalidade.
Tiros de fuzil desenham nos barracos a escrita deste outro Canudos. No latifúndio da mídia, o furor repressivo não é explicado como uma política dura antes dos mega eventos internacionais tipo copa do mundo, legitimada pelas últimas eleições. Pacificação, um  eufemismo.
A polícia mais mal falada do país é o braço armado do governador para fazer o mal de uma vez só, ajudado pelas armas de guerra da Nação bestializada. E a ordem é deitar fogo contra as cidadelas do tráfico, os barracos de muitos no meio, enquanto os soldados de um exército de jovens que foram entregues ao vício e ao crime  pela insana razão de estado de considerar a droga um problema da polícia e não do usuário, morrem estupidamente. O próprio Estado promove essa situação absurda de guerra urbana motivada pela criminalização da droga que gera o tráfico de drogas, o mal . E o tráfico de armas, subproduto indesejável e lucrativo. 
Os verdadeiros responsáveis pela tragédia legitimada pelos votos e executada com o dinheiro do contribuinte, refestelam-se longe dos morros como sempre. Promovem a proibição e a ideologia da droga que alimenta o conflito sangrento que acontece no Rio. Negociam os novos pontos de distribuição na cidade que substituirão as áreas "pacificadas" nos próximos anos. Votam por mais verbas para armas  nos orçamentos públicos com a mesma desfaçatez que exibem manifestos pela paz.


12 de nov. de 2010

Domingo solar. Mantiquieira lá fora e no rádio do carro a canção original, com Bob Dylan . Jogo de espelhos, poesia e mundo  imenso. Foi o domingo, ficou a memória que caiu aqui com a gravidade  da música. Versão mais clássica que a original. Gal Costa, a intérprete definitiva.

Negro Amor (It's All Over Now, Baby Blue)

Composição: Bob Dylan / Versão Péricles Cavalcante e Caetano Veloso
Artigo de minha autoria publicado na RevLet, da UFG

 CLARICE LISPECTOR E OS INTELECTUAIS NO ESTADO NOVO
Margareth Cordeiro Franklin
 

RESUMO: Este trabalho pretende refletir sobre os primeiros anos da trajetória literária da escritora Clarice Lispector (1939-1945). No contexto internacional são anos da Segunda Guerra e no Brasil, do regime ditatorial instaurado por Getúlio Vargas, o Estado Novo. Tal período não foi marcante apenas para nossa história política, social ou econômica, mas principalmente para uma história dos intelectuais, pois o esforço para diluir as diferenças entre os homens de letras e os políticos tornou-se objetivo do governo que soube acolher,
amparar e principalmente utilizar os diferentes graus de compromissos mantidos por artistas e intelectuais com o regime. Acompanhando o percurso da jovem Clarice Lispector pode-se compreender porque seu primeiro romance foi considerado diferente do que se fazia então e ela consagrou-se posteriormente como um dos mais importantes nomes da literatura brasileira.

LEIA MAIS:

http://revistas.jatai.ufg.br/index.php/revlet/issue/current

2 de nov. de 2010

Mario de Andrade

Eu Sou Trezentos...

Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
As sensações renascem de si mesmas sem repouso,
Ôh espelhos, ôh! Pirineus! ôh caiçaras!
Si um deus morrer, irei no Piauí buscar outro!
Abraço no meu leito as milhores palavras,
E os suspiros que dou são violinos alheios;
Eu piso a terra como quem descobre a furto
Nas esquinas, nos táxis, nas camarinhas seus próprios beijos!
Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
Mas um dia afinal eu toparei comigo...
Tenhamos paciência, andorinhas curtas,
Só o esquecimento é que condensa,
E então minha alma servirá de abrigo.

24 de out. de 2010

MILITÂNCIA

As coisas se complicaram num segundo turno difícil de engolir para os caciques petistas que julgavam sua tática eleitoral impecável. A aliança com o PMDB, a candidatura com Hélio Costa, as chatas e intermináveis disputas internas no PT, a prévia mal feita e mal amada entre Patrus e Pimentel quando nós já sabíamos de fato que o negócio era a aliança com o PMDB mineiro. E principalmente a relação com o governador Aécio Neves.
Os Movimentos Sociais não entram nessa contabilidade antiquada da direção petista. Faz tempo que as forças da sociedade são “café pequeno” no alto jogo político feito ainda sob a influência na mentalidade de um tempo em que a elite conservadora se dividia em UDN e PSD. Aécio Neves, o adversário dos sonhos dos petistas brasileiros, pessedista redivivo, sempre teve na oposição vacilante da bancada de deputados petistas um aliado poderoso ao seu governo. Então com uma imprensa totalmente controlada e o poder de uma hegemonia absurda no legislativo, fez e desfez, déspota falsamente esclarecido elegendo seu filósofo de plantão, Anastasia, e manipulando os cordões da marionete sempre disponível, Itamar Franco. 
Hélio Costa e Pimentel não foram eleitos. Dilma foi para o segundo turno. Bela tática...
Então, como isso foi possível? Como chegamos, de novo, ao limite do empate com as forças conservadoras, os caciques estaduais, os velhos coronéis de sempre? Como perdemos o charme da ideologia libertária para cairmos na sedução da política como espetáculo? Tanto foi feito no Brasil do governo Lula e por que um velho lustre aceso numa longínqua casa grande ainda domina a escolha das pessoas através do aparelho de TV?
O jogo ficou muito tenso e devo dizer que ao longo desses anos todos, essa foi a hora mais decisiva vivida na política brasileira. A possibilidade de voltar ao poder assanhou os conservadores e forçou uma guinada idem no discurso de Dilma, que foi à Aparecida, rezou, negou o aborto e ficou acuada sob ataques ao governo.
Todos sentimos juntos o vapor sórdido da onda de mentiras, calúnias, dissimulações, e a aplicação obstinada do discurso fascista de moral, vida privada, controle, criminalização. A coisa atingiu, para mim, seu limite quando José Serra referiu-se ao MST como caso de polícia e de novo a ameaça pesou feio sobre tudo que foi construído esses anos todos no Brasil dos esquecidos.
Nessa  hora tensa, como em todas as horas tensas que vivemos antes, a militância saiu em cena e promoveu o verdadeiro espetáculo da política: o das multidões em movimento. Aconteceu com a carreata marcada para a Pça do Papa, em BH. Lula e Dilma animaram uma gigantesca caravana que parou a cidade. Ao fim do seu discurso, tive a chance de ver de perto o Presidente Lula e ele chorava, emocionado.
As ruas cobertas de bandeiras, os sorrisos largos, a felicidade pública transbordando e as lágrimas do presidente, grande artista dessa obra, podem dizer daquele instante exato em que simbolicamente as forças dos que lutam a vida inteira e são por isso, imprescindíveis, pesam decisivamente. Os militantes, eles existem. 
Depois desse dia as pesquisas trouxeram algum alívio e agora, nesta reta final de campanha, a palavra de ordem deve ser uma só: desliguem a TV e vamos prá rua. Mesmo que a rua seja uma cyberrua repleta de endereços eletrônicos. A internet é do povo, como o céu é do gavião!!!

22 de out. de 2010

O Beijo no Asfalto

Que a humanidade vença o embate contra os ciborgs do capitalismo totalitário. O beijo, um protesto contra a aprovação da reforma da previdência na França, empresta a luz da delicadeza contra o sombrio dos soldados. Na pátria dos direitos, a retirada dos direitos dos trabalhadores não ficou sem respostas e a luta prossegue nessa verdadeira barricada do desejo... (foto: Folha São Paulo 22/10)

19 de out. de 2010

Situação dos moradores 
Torres Gêmeas BH - Outubro 2010 - Raquel Rolnik
VEJAM: http://www.youtube.com/watch?v=_ccw1d8jud8

16 de out. de 2010


O debate sobre o aborto nas eleições de 2010.
Por Margareth Cordeiro Franklin (Professora  de história do CEFET MG)

A desfaçatez da elite brasileira é a sua maior marca registrada e principal prova de que estamos lidando com os mais ferozes donos do poder do mundo. Assim tem sido ao longo da história e no caso do debate absurdo travado sobre o aborto neste segundo turno das eleições presidenciais. É lamentável que a defesa da vida seja tão contundente apenas para os que ainda não nasceram, enquanto na vida real milhões de crianças e jovens perdem a vida todos os anos por causas violentas. De morte morrida no trânsito ou matada no crime, no confronto com policiais, com facções rivais ou podres de crack, álcool ou outras drogas.
Homens bons, cordiais, senhoras bem vestidas, mães de família, religiosos humanistas e bem intencionados. Todos são cordiais e de bem,  mas fecham os olhos à matança de mulheres pobres, abandonadas, sem fé, sem lei e sem rei no Brasil mestiço, desavergonhado, dissimulado, bestial e machista ao extremo. Ninguém fala da mulher? Da permanência histórica das suas dores e horrores? Na sua responsabilidade moral e física pelo ato do aborto e da dor exposta publicamente ainda ser crime e condenação? 
As mulheres são os lados fraco e forte nessas eleições. As feras cinocéfalas rugem contra as chances de uma mulher chegar à presidência. A mídia deixa cair sua máscara de imparcialidade e se entrega inteira, meretriz das benesses de um tempo de névoas. E inventa livremente a pauta política nas falas cretinas dos editores em uma nação que se divide de novo em personagens machadianos, no teatro de acontecimentos que vão definir nosso destino político daqui a poucos dias.
A mídia manda e o aborto vira assunto prioritário a assanhar os partidários do atraso e da ignorância O comportamento da grande imprensa orienta um debate manipulador valendo-se de palavras e sentidos. O absurdo debate  hipócrita torna-se o centro de uma disputa entre os dois brasis: o real, que vive o seu cotidiano e experimenta a navegação em águas prósperas dos últimos 8 anos de Lula na presidência e seus 90% de aprovação ao final do governo, e o virtual, inventado pelo poder da Mídia. O quarto poder entra em cena e sem vergonha constrói uma rede de intrigas para  seduzir os eleitores e destruir o voto livre, tão duramente conquistado pela República.
O eleitor se perde entre os discursos religiosos e morais que consideram o  aborto um crime contra a vida. Porém, não percebem que esse debate esconde uma monumental negação à própria Constituição Brasileira, que não admite pena de morte. Quando uma mulher faz aborto sem atendimento médico ela é na prática condenada à morte pela postura moral desses mesmos discursos cheios de boas intenções como o inferno.
Por outro lado, ninguém fala da ausência evidente do homem nesse debate. Onde está a metade masculina responsável pelo aborto? Embriões não são gerados só por mulheres... Nada acontece legalmente com um homem que induz ao aborto? Sequer é lembrado? Como disse o melhor tradutor do espírito dissimulado da elite brasileira, Machado de Assis, no caso do aborto em debate “ a mentira é muitas vezes tão involuntária como a respiração.”

12 de out. de 2010

Mídia Gambiarra

 A democracia brasileira expõe através da sua mídia mais poderosa a permanência de uma tradição autoritária comandada pela elite mais conservadora do mundo. Nessas eleições, o posicionamente desavergonhado da grande imprensa em favor do candidato tucano incluiu seduzir, mentir, omitir, demitir, perseguir, ferir, excluir. 
Esse arremedo de quarto poder do Estado revela sua verdadeira face: a gambiarra de liberdade que ata a imprensa ao jogo dos  interesses que comandam as nossas vidas.


Gambiarras: Cao Guimarães

3 de out. de 2010

Eleição em manhã de névoas. A mídia se une para gritar pelo segundo turno. O povo, de novo, assiste bestializado o resultado ser construído segundo o previsível cálculo da política  como espetáculo.
Os cidadãos continuam emprestando a sua bandeira para  uma cena com incertos protagonistas.

1 de out. de 2010

Às vésperas da eleição geral que abala o país ou entedia os telespectadores com a política reduzida à plástica do marketing eleitoral, a polícia republicana baixa o porrete nos sem- casas acampados na porta da Prefeitura de BH, governada por um sujeito que recebeu as chaves da cidade das mãos do PT. Feio demais. Movimentos sociais no Brasil continuam sendo caso de polícia, como sempre foi... Nossas esperanças se renovam na resistência do povo das ocupações Dandara, Camilo Torres, Irmã Doroty e Duas Torres. Pátria Livre. Venceremos!!