19 de abr. de 2010

as flores de plástico não morrem

G. Braque

O silêncio dos intelectuais é  também a confirmação de que o espaço de liberdade encolheu de tal forma que ninguém mais fala e ninguém escuta, em meio a  algazarra geral que virou a facilidade de manifestar posições na babel eletrônica das redes de comunicação. Nada dura além dos 15 minutos da fama de cada idéia, acontecimento, fato histórico, tragédia pessoal, catástrofe natural, feitos de celebridades, bizarrices anônimas.
Dilma Roussef deposita flores no túmulo de Tancredo Neves e o significado simbólico desse primeiro grande gesto da candidata à sucessão de Lula no segundo colégio eleitoral do país é inequívoco. A ex-guerrilheira e o antigo primeiro ministro no grande laboratório da cultura política mineira parecem dizer de um outro túmulo, onde jaz qualquer pretensão de mudança em um passado que nunca passa.
Trata-se da tradição que prende com um alfinete as asas de borboleta do tempo e o interminável presente feito de passado expõe sempre as ruínas do futuro. A decadência vence e a  longa duração permanece impávida na tradição que muda conservando. São os tempos em que o novo possível se curva diante do mito: as flores de plástico não morrem

18 de abr. de 2010

Homenagem a Picasso

João Cabral de Melo Neto   

O esquadro disfarça o eclipse
que os homens não querem ver.
Não há música aparentemente
nos violinos fechados.
Apenas os recortes dos jornais diários
acenam para mim como o juízo final

16 de abr. de 2010

Hélio Oiticica
Parangolé urbano


Seu Tarcísio ajudou a fundar o PT no Barreiro. Ainda me lembro que quando ele tecia suas análises ou fazia perguntas difíceis, eu ficava imaginando se  não era um daqueles líderes operários clandestinos que se esconderam nos cantos dos bairros operários para escapar da perseguição da ditadura militar e apareciam agora nos núcleos do PT, disfarçados de pobre, com jeito simples e roupas modestas.
Mas que nada, Seu Tarcísio era mesmo da comunidade e era inteligente, dando a impressão de sempre sorrir enquanto falava. Quero caprichar nas tintas da sua descrição, a camisa azul, o cabelo lavado penteado de lado, escondendo a careca. Na ocasião, já tinha ficado cego e começava a se firmar como camelô, vendendo bugigangas pelas ruas do Centro. Seu ponto costumeiro, na esquina da Bahia com Goitacazes, é ainda um observatório privilegiado, como sabiam Nava e Drummond.
E ele resiste à frente do seu mostruário, parangolé urbano feito em tosca armação de papelão sobre um carrinho. Ali pendura espelhinhos, cadarços coloridos, tomadas de luz, ralos de pia, pentes redondinhos, cortadores de unha, agulheiros e toda a sorte de incríveis objetos que compõe o patrimônio e a moldura do homem invisível para quem, no sobe e desce mais famoso da metrópole, não nota sua presença há trinta anos, idade do Partido que ajudou a construir.
O velho senhor cego ainda carrega seu estandarte de exposição de inutilidades e tem sempre o mesmo sorriso no rosto. Seu Tarcísio, herói anônimo, cuja ação cidadã no passado encontra-se ameaçada pelos burocratas que ajudam a manter a tradição da elite brasileira de mudar conservando.
Contra esses, a memória do sonho de pessoas como Seu Tarcísio...

Orides Fontela

FALA

Tudo
será difícil de dizer:
a palavra real
nunca é suave.

Tudo será duro:
luz impiedosa
excessiva vivência
consciência demais do ser.

Tudo será
capaz de ferir. Será
agressivamente real.
Tão real que nos despedaça.

Não há piedade nos signos
e nem o amor: o ser
é excessivamente lúcido
e a palavra é densa e nos fere.

(Toda palavra é crueldade.)
                     De Transpiração, 1969
Paul Klee
Orides Fontela (1940- 1998) é uma das minhas poetas preferidas. Viveu e morreu  na mais completa miséria, mesmo sendo considerada pela crítica como um dos nomes mais importantes da poesia brasileira contemporânea ...

14 de abr. de 2010

PANDORA

Na mitologia grega, Pandora (do grego: Πανδώρα, "a que tudo dá", "a que possui tudo"[1]) foi a primeira mulher, criada por Zeus como punição aos homens pela ousadia do titã Prometeu em roubar aos céus o segredo do fogo. (Wikipédia)



O nome Pandora no filme Avatar, de James Cameron, não aparece por acaso. A mensagem do filme diz respeito à nossa condição de seres interligados a um centro vital que é nosso próprio planeta e aplica-se bem à Terra em crise aguda da chamada civilização.Em Avatar, as peles diferentes e a consciência planetária oposta fazem dos humanos os inimigos cuja tecnologia avançada ameaça de destruição o planeta Pandora. Os humanos são os vilões ávidos de riqueza e poder, predadores ferozes que já haviam destruído a natureza do mundo de onde vinham. Os bilhões de humanos que viram o filme, certamente sentiram-se tocados pela mensagem da necessidade de uma mudança de atitude em relação ao planeta e, por um instante, viveram a possibilidade de se  identificarem com heróis improváveis e cheios de consciência coletiva.  
Na Terra, segundo no mito de Pandora, o fogo sagrado do conhecimento foi roubado por Prometeu e este tornou os humanos superiores em relação aos demais animais e à própria natureza. Os deuses puniram Prometeu que passou a viver preso com as vísceras eternamente devoradas por um abutre. Também enviaram Pandora, criada à semelhança das deusas mais belas, para a Epimeteu, o irmão de Prometeu. Para punir os humanos, ou por temer os resultados do que fariam com o conhecimento que agora possuíam,  os deuses mandaram junto com Pandora uma caixa que nunca deveria ser aberta. Mas Epimeteu, curioso, abriu  a caixa  e a partir daí, todos os males voaram para o mundo e fomos castigados para sempre, sujeitos à morte, aos desastres naturais, às doenças e  a outros sofrimentos.
Pandora, o planeta do filme Avatar, representa uma imagem invertida do mito grego, pois, havia harmonia total entre os seres Na’vi e os seus deuses, a quem eram ligados pela natureza. Essa ligação aponta um outro caminho para o uso do conhecimento e. todos partilhavam em rede, no círculo da vida, a metáfora do paraíso. Pandora cria e não destrói e a inversão ao mito é com certeza a mais bela narrativa do filme.
 O círculo da vida dos Na’vis é certamente inspirado no célebre A dança, de Matisse, e a mesma noção do pintor da necessidade da arte como superação dos limites humanos em favor de uma alegria de viver, tão necessária quando tudo parece não ter mais saída, parece simbolizar a força que buscam na rede da vida o que os protegerá da destruição.
Outro artista, o surrealista Magritte, também está presente em Avatar nas montanhas suspensas de Pandora, como a falar das múltiplas realidades sob a aparência das coisas. Cameron se apropria, à sua moda, de fragmentos da linguagem artística humana para defender o bom uso do conhecimento e para lembrar que o uso que os humanos fizeram dele até hoje  resultou quase sempre em destruição.
Depois do Haiti, Chile e agora China, que sofreram com violentos terremotos, fora outros tremores menores que têm sacudido o planeta, além das chuvas exageradas em SP e  RJ, aqui tão perto, devíamos prestar mais atenção ao recado da Terra exausta e violentada. A resposta está vindo na mesma proporção do descaso humano com a sua casa.

(Margareth - dedico este  texto ao Lélio, que gostou do filme e respeita profundamente as pessoas e o planeta.)

13 de abr. de 2010

Natureza morta

Patrícia Galvão (Pagú)

Os livros são dorsos de estantes distantes quebradas.
Estou dependurada na parede feita um quadro.
Ninguém me segurou pelos cabelos.
Puseram um prego em meu coração para que eu não me mova
Espetaram, hein? a ave na parede
Mas conservaram os meus olhos
É verdade que eles estão parados.
Como os meus dedos, na mesma frase.
Espicharam-se em coágulos azuis.
Que monótono o mar!
Os meus pés não dão mais um passo.
O meu sangue chorando
As crianças gritando,
Os homens morrendo
O tempo andando
As luzes fulgindo,
As casas subindo,
O dinheiro circulando,
O dinheiro caindo.
Os namorados passando, passeando,
O lixo aumentando,
Que monótono o mar!
Procurei acender de novo o cigarro.
Por que o poeta não morre?
Por que o coração engorda?
Por que as crianças crescem?
Por que este mar idiota não cobre o telhado das casas?
Por que existem telhados e avenidas?
Por que se escrevem cartas e existe o jornal?
Que monótono o mar!
Estou espichada na tela como um monte de frutas apodrecendo.
Si eu ainda tivesse unhas
Enterraria os meus dedos nesse espaço branco
Vertem os meus olhos uma fumaça salgada
Este mar, este mar não escorre por minhas faces.
Estou com tanto frio, e não tenho ninguém ...
Nem a presença dos corvos.

12 de abr. de 2010

Arte Movimento


(reproduções de Paul Cezanne, Jean Dubuffet e Marcel Duchamp)

Alguns leitores curiosos perguntaram sobre o significado do título deste blog ser Arte Movimento: lá vai.

Muita coisa aconteceu desde que as vanguardas artísticas passaram a experimentar formas de expressão inovadoras como cubismo, expressionismo, dadaísmo, performances, land art, instalações, etc e tal. Essas e outras modalidades de linguagem artística foram marcadas pela liberdade em relação ao real,  pelo efêmero, pelo uso de materiais inusitados e alternativos, pela ambição da interatividade com o público, pela produção de múltiplos  sentidos, enquanto na sociedade a hegemonia do capitalismo impunha o dogma da ideologia do consumo e da adoração à tecnologia.
Tendo as formas de expressão artística  como referência, penso ser possível incluir as manifestações políticas como uma espécie de criação coletiva da maior relevância. Fundamentais para alargar o espaço da política, da liberdade e do pensamento, as manifestações políticas aproximam-se do conceito de Arte Total que em sua forma extrema encontra nas revoluções sua tradução mais perfeita. As revoluções populares guiadas pela vontade coletiva,  produziram momentos intensos como o apogeu de uma criação capaz de mudar o curso dos acontecimentos. Espécie de iluminação que só a  fundação de uma nova ordem é capaz de produzir.
A fundação política é o conceito primordial para instalação de formas alternativas de poder pela associação voluntária entre os indivíduos, porque só a ação humana coletiva é capaz de fundar uma nova comunidade, repactuar  valores e desenhar o futuro: Arte Movimento

7 de abr. de 2010

P. Verger
A utopia tem data marcada
Confiram o belo vídeo "O carnaval do Fubá", de Sergio Ribeiro, sobre esse grande personagem que é Gilson Fubá.
www.youtube.com/colibrifilmes

3 de abr. de 2010

Guignard
Em abril pode se
reduzir as coisas e fatos
a  meros  fiapos de nuvem
que passam, registram, relatam
milhares das histórias que o vento sopra
e sempre reconta
e torna a sonhar.
Nuvens encantadas,
fazem sinfonias em cores inesperadas,
contra o verde do parque, o rosa das paineiras
e o laranja - fogo das espatodeas africanas.
                                          

2 de abr. de 2010

Como botafoguense desde criancinha não poderia deixar de aplaudir o Armando Nogueira e  esse vídeo esclarecedor sobre as eleições de 1989.
Vejam o video em: http://www.viomundo.com.br/tv/armando-nogueira-o-debate-de-1989.html

Reproduções de  Jacques Villeglé e Jean Tinguely
"Saúdo o vigésimo primeiro século que é a minha época, meu presente e meu futuro. O século XX já alguma vez existiu? (...). Concebida por poetas do tempo livre e por especialistas da sensibilidade urbana, a arte de amanhã será uma arte total correspondente a uma estética popular generalizada, fundamento das indispensáveis metamorfoses planetárias" .(do Manifesto Pela Arte Total ou Contra a Internacional da Mediocridade - Pierre Restany - 1967)

1 de abr. de 2010

Então. Vou começar pelo final que é onde estou. Recebi uma homenagem pelos 30 anos de fundação do PT do Diretório Regional do Barreiro e os acontecimentos da noite da homenagem desencadearam velhas lembranças que precisam fluir para que o esquecimento não seja o canto de sereia a nos fazer perder o rumo.
 Barreiro vermelho, de barro, fumaça, luta e história, como no poema do Padre Paulo, tão querido naquela comunidade. Chão de minério puro ao pé da Serra do Rola Moça, imponente, apesar da ganância mineradora. A serra olha do seu lugar de monumento mineral o tempo passando e ri dos 30 anos, um nada, nem um suspiro seu.
A homenagem aconteceu na Escola Sindical 7 de Outubro, onde antes funcionava minha antiga escola, o Ginásio Cristo Redentor. O auditório está construído exatamente em cima do lugar onde antes existiu uma sala de tábuas. Nela eu  fiz a sétima série ajudando a editar, em 1973, um jornalzinho precário e radical chamado Caixote, que reproduzia as letras de Raul Seixas e  tinha o Vietnã e declarações pedindo o fim da guerra como matérias obrigatórias. Os lugares guardam uma  magia secreta e com certeza, se soubermos enxergar para além das coincidências, existe sempre uma vontade de futuro, um desejo de ação, como agora eu sinto e tenho que me haver com as lembranças guardadas. Não, esse não será um relato objetivo.
Mas o esforço, prometo, será para me isentar ao máximo, ainda que isso seja impossível, pois simpatias e afinidades sempre as temos  por uns e outros. Mas não me ocuparei com a pretensão de fazer um grande épico dos gloriosos e heróicos anos em que fundamos o Partido dos Trabalhadores, fomos capazes de inúmeras jogadas celestiais e de fazer o gol de tomar o poder duas décadas depois. E, se colocar um trabalhador na presidência não foi totalmente sem sangue, porque foram muitos os que tombaram para pavimentar essa tomada do poder, o que predominou mesmo foi muita alegria e capacidade de combinar técnica e paixão.Acredito sinceramente na responsabilidade que pesa sobre os ombros de quem se atreve a narrar qualquer pedaço dessa história, por ser tarefa gigantesca que penso mais adequada aos aedos que aos historiadores, pois apenas os poetas são livres.
No Barreiro, na outrora região de grandes hortas e pomares, de ar frio e céu esplêndido que nos idos de 1896, Aarão Reis e os seus decidiram construir a Colônia de Vargem Grande para receber os imigrantes italianos e alemães, construímos com sucesso uma cidadela de bandeira vermelha e estrelada. Então, enfrentamos com nossa juventude, poderosos remanescentes dos velhos coronéis, conservadores de todas as ordens, vencemos, mudamos mentalidades, e nossa glória só não é maior hoje porque essa história não foi contada. Aliás, cada ano se perde um pouco do que se sabe sobre os acontecimentos daqueles anos em cada um que desiste, morre ou vai embora, causando um prejuízo enorme para o que saberão as futuras gerações, pois Walter Benjamin me assustou para sempre, ensinando que se os inimigos vencerem, nem os mortos poderão descansar em paz. E eles não têm cessado de vencer.
Por isso a decisão de contar, contar atropelando o tempo linear, contar com o fôlego privilegiado de quem subiu e desceu tantos morros: Cardoso, Flávio Marques, Vila Cemig, Santa Helena, Araguaia, Milionários, Bonsucesso, Santa Cruz, Santa Cecília. Barreiro de Cima,  de Baixo, Barreiro subterrâneo, dos córregos, das hortas, dos quintais, mangueiras e jabuticabas. Retrato na parede, mas como dói. Saudade, friozinho, barro grudado para sempre na sola dos pés vermelhos, olhos marejados de fumaça vermelha da siderúrgica que subia colorindo o céu. E são tantas lembranças que atrapalham contar e exigem fôlego, de novo os morros  e lá vamos nós, ladeira acima, caminho pedregoso. E quem pode saber disso se não viveu?
Mas Gilson (sempre ele) ajudou: tem que começar falando do primeiro dia, da primeira reunião (foram tantas) na casa de Rosalinda e Rogério e como decidimos fazer um núcleo do PT e lutarmos por melhores condições de transporte público (até hoje uma droga).
 Mas não foi lá não Gilson, foi na sua casa. Aquela casa dos seus pais, a que você projetou com seu talento brilhante do arquiteto dessa história toda no Barreiro. A casa que o Paulinho bahiano, cunhado de Rogério,  brincava dizendo parecer um piano de cauda. Foi no porão, onde vc tinha um quarto que eu, você e a querida Cristina Góes, conversamos sobre uma reunião que teria no Colégio Santa Rita com uns sindicalistas do ABC paulista sobre a idéia de fundar um partido político. Você e Cristina eram da Centelha e eu era professora primária, não tinha entrado ainda na universidade e não podia ser da tendência, apesar de já ter participado do Comando Geral da Greve dos Professores de 1979. Eu morria de curiosidade e vontade de entrar no universo secreto dos grupos clandestinos e por isso lá fomos nós, num sábado, na tal reunião do Colégio Santa Rita. Lá estavam Lula, talvez Jacó Bittar e Olívio Dutra, com certeza  Seu Joaquim, Seu Milton Freitas, Seu Alcides, que já ficaram encantados. Inácio Hernandez, Ademir, Virgílio Guimarães, Sandra Starling, Patrus Ananias, Nilmário Miranda, Tilden Santiago, Sálvio Pena e mais a gente do Jornal dos Bairros . Também o pessoal do CET- Centro de Estudos do Trabalho ( Teresa, Luiz Henrique, Beth Marques e outros ) além dos meus colegas das greves de professores daquele ano espantoso: Durval Ângelo, Luís Dulci, Carlão Pereira, Júlio Pires, Ísis Magalhães, Petinha, Rogério Correia, Rosaura, Juarez Dayrell, Ronaldinho, Léo, Rosa, Rogério, e é claro, eu., Gilson e Cristina Góes e muitos outros. E nós ali, nas arquibancadas de cimento do ginásio do colégio Santa Rita, ouvimos os  visitantes ainda não tão ilustres, que explicavam para os mineiros porque não continuar no MDB e fundar um partido novo, de trabalhadores.
Lembra Gilson? Você, Cris e a Centelha inteira votaram no Humberto Rezende no ano anterior. Eu votei nulo, meu primeiro voto, pois não tinha concordado em votar em ninguém do MDB. E foi nessa reunião que nos tornamos responsáveis por articular o tal núcleo que começou na casa de Rosa e Rogério e recebeu tantos agregados importantes que serão lembrados na sequência, conduzindo o fio dessa narrativa.
Prometo que vou continuar esse esforço de lembrar e vou usar o espaço desse blog como suporte para esse registro...

24 de mar. de 2010

Basquiat
A Máquina do Mundo
Carlos Drummond de Andrade


E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco
se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas
lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,
a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.
Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável
pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar
toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.
Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera
e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,
(...)

21 de mar. de 2010



Cultura em BH: triste horizonte

       Da janela lateral, uma esquina inesquecível: Aimorés com Maranhão, quase Serra. Casarão antigo, Bar Brasil dos frementes anos 80, 90,2000 acima até acabar espigão sem graça, diamante de blindex e granito, compacto, violento, monumento à barbárie do capital e da técnica. A memória não vale mais nada. E aceitamos com uma passividade surpreendente eles levarem mais do que nosso jardim inteiro. Já estão levando nossa história enquanto inventam desejos, mitos e ídolos para acreditarmos pela televisão.
        O Bar Brasil condenado por uma ação irresponsável do administrador público e/ ou dos proprietários a virar uma portaria, na melhor hipótese, de um poderoso condomínio. A clareira formada pela esquina e a rua sem saída numa cidade com tão poucas praças e largos será preenchida por mais uma torre, prejuízo ambiental maior que a própria casinha sempre azul, de venda, linda, o Bar Brasil, querido para a cidade.
      Também querem nos privar da Praça da Estação, onde o PT comandou o mais belo comício do mundo, para milhares de pessoas que, debaixo de chuva, em 1989 ,gritavam Lula lá. Agora, BH na contramão e a praça fica proibida às grandes manifestações, mesmo as religiosas. Aliás, são as manifestações religiosas que mais usam e danificam a Praça hoje em dia, pois, a política deixou de usar as praças preferindo os bastidores e os movimentos sociais, enfraquecidos, não estão em fase de ocupar e resistir grandes espaços.
       Agora, o FIT foi cancelado e BH sem Festival este ano.
       Que é isso companheiros? Vocês não acham que a essa altura, piorar na Cultura é um contra senso?
       Quer dizer, é preciso um esforço coletivo e gigantesco para mudar mentalidades, construir valores civilizatórios e padrões éticos de convivência comum, impossível sem a educação e a cultura. Precisamos frear o trem descarrilhado do progresso entendido como afirmação da lógica do capital e substituir por uma lógica do humano, da sustentabilidade que é ainda só uma palavra, antes que o planeta se despedace. Precisamos da liberdade da arte para reinventar a realidade, para saber das suas infinitas possibilidades, para sonhar...
         Numa cidade longe do mar, com pouquíssimas praças e áreas de lazer coletivo, a arte e todas as manifestações da cultura, inclusive a cultura política, fazem parte da vida dos cidadãos, são a sua praia. O Festival de Teatro tem sido um desses belos momentos de arte coletiva, de fascínio da multidão seduzida pelo espetáculo. E vem uma turma tosca e confunde FIT com Copa do Mundo e eleições gerais em outubro!?!
          FIT, Praça da Estação e Bar Brasil: triste horizonte...

(Margareth Cordeiro Franklin )

16 de mar. de 2010

Análise: LUIZ BOLOGNESI

( roteirista de filmes como Bicho de Sete Cabeças e Chega de Saudade)

O Oscar e o Avatar

Ao contrário do que parece à primeira vista, a polarização entre Avatar e Guerra ao Terror não traduz uma disputa entre cinema industrial e cinema independente, nem batalha entre homem e mulher. O que estava em jogo e continua é o confronto entre um filme contra a máquina de guerra e a economia que a alimenta e outro absolutamente a favor, com estratégias subliminares a serviço da velha apologia à cavalaria.
Avatar foi acusado nos Estados Unidos de ser propaganda de esquerda. E é. Por isso é interessante. No filme, repleto de clichês, os vilões são o general, o exército americano e as companhias exploradoras de minério do subsolo. Os heróis são o "povo da floresta". A certa altura, eles reúnem todos os ''clãs'' para enfrentar o invasor americano. Clãs? Invasor americano? Que passa? É difícil entender como a indústria de Hollywood conseguiu produzir um filme tão na contramão dos interesses do país e transformá-lo no filme mais visto na história do cinema. Esse fato derruba qualquer teoria conspiratória, derruba décadas de pensamento de esquerda segundo a qual a indústria de Hollywood está sempre a serviço da ideologia do fast-food e da economia que avança com mísseis, aviões e tanques. Como explicar esse fenômeno tão contraditório? (...)
Guerra ao Terror estreou no Festival de Veneza há dois anos. Por acaso eu estava lá como roteirista de Terra Vermelha, do diretor italiano Marco Bechis, e fui testemunha ocular da história. O filme da diretora Kathryn Bigelow foi absolutamente desprezado pelos jornalistas e pelo público. E seguiu assim. Indo direto ao DVD, em muitos países, sem passar pelas salas de cinema. Até ser resgatado pela indústria americana como um trunfo necessário para contestar Avatar e reverenciar a máquina de guerra e o sacrifício de tantos jovens americanos mortos e decepados em campo de batalha.
Guerra ao Terror venceu o Oscar porque, como nos filmes de forte apache, transforma os assassinos que dizimam outras culturas em heróis santificados. A cena extremamente longa e minimalista em que os jovens soldados americanos em situação desprivilegiada combatem no deserto os iraquianos é o que, se não uma cena clássica de caubóis cercados por apaches? Sem nenhuma surpresa para filmes desse gênero, os garotos americanos vencem, matam os iraquianos sem rosto, como os caubóis faziam com os apaches no velho-oeste. A cena do garoto iraquiano morto, com uma bomba colocada dentro do corpo por impiedosos iraquianos, que literalmente matam criancinhas, tem a sutileza de um elefante numa loja de cristais. Propaganda baratíssima da máquina de guerra.
No filme de Cameron, os na"vi azuis podem ser os apaches que derrotam o general e expulsam a cavalaria americana. Mas isso é apenas uma ficção. Na vida real do Oscar, a cavalaria precisa continuar massacrando os apaches.


14 de mar. de 2010

De Chirico
Mesmo assim eu guardo papéis
Construí sobre seus desertos
Mais cidades do que os homens
com suas ambições por ruínas.


E A MORTE PERDERÁ O SEU DOMÍNIO


Dylan Thomas

E a morte perderá o seu domínio.

Nus, os homens mortos irão confundir-se

com o homem no vento e na lua do poente;

quando, descarnados e limpos, desaparecerem os ossos

hão-de nos seus braços e pés brilhar as estrelas.

Mesmo que se tornem loucos permanecerá o espírito lúcido;

mesmo que sejam submersos pelo mar, eles hão-de ressurgir;

mesmo que os amantes se percam, continuará o amor;

e a morte perderá o seu domínio.



E a morte perderá o seu domínio.

Aqueles que há muito repousam sobre as ondas do mar

não morrerão com a chegada do vento;

ainda que, na roda da tortura, comecem

os tendões a ceder, jamais se partirão;

entre as suas mãos será destruída a fé

e, como unicórnios, virá atravessá-los o sofrimento;

embora sejam divididos eles manterão a sua unidade;

e a morte perderá o seu domínio.



E a morte perderá o seu domínio.

Não hão-de gritar mais as gaivotas aos seus ouvidos

nem as vagas romper tumultuosamente nas praias;

onde se abriu uma flor não poderá nenhuma flor

erguer a sua corola em direcção à força das chuvas;

ainda que estejam mortas e loucas, hão-de descer

como pregos as suas cabeças pelas margaridas;

é no sol que irrompem até que o sol se extinga,

e a morte perderá o seu domínio.

21 de fev. de 2010


 Sobre Matisse, escreveu Giulio Argan:
" Matisse viveu duas guerras; como todos com elas sofreu; mas não permitiu que se revelasse na pintura uma ponta sequer da dor do mundo. Se o mundo em suas crises de loucura destrói os valores da civilização, o sábio deve criar e acumular outros  valores: a humanidade irá utilizá-los para se recuperar dos golpes da história. A arte conserva ou restabelece nos homens a alegria de viver."(1993, p.343 )

15 de fev. de 2010

FEVEREIRO

Transversal corta o espaço
dobrando o tempo
encurtando.

Do sonho eu chego a aurora. Quimérica
( nas chuvas as manhãs custam a chegar).
"O poeta finge que é dor".
Mas porque diabos tinha o sonho que excluir a poesia?
Para ter a sensação de avantesma.
Fantasma.

Passam os autos e os galos cantam.
Acordam vizinhos putos. Latas batem..

Tampas de comida de ontem ainda.

O relógio implacável aponta o trecho da rua
que ele pode andar com a cabeça descoberta.
Pouco, muito pouco. Logo outra forma geométrica
de concreto e trabalho cobrirá sua cabeça.
Mas andou na chuva
e aproveitou para abrir os pulmões ao seu limite
e engolir a madrugada úmida.
Sonho de homem que sonha tão pouco.
(Lembro-me de um cavalo no interior da Terra).

Batem latas. Batem sons do silêncio
no escuro da manhã.


Margareth Franklin
(publicado em Mulheres e crianças - 1995)

13 de fev. de 2010




Desobediencia Civil
  A desobediencia civil é uma forma extrema de expressão política que, ao se manifestar por meio da associação, fala a linguagem da persuasão, resgata a faculdade de agir, gera poder pela ação conjunta de muitos e se coloca na esfera do interesse público. A desobediência civil é legítima e pode ser bem sucedida na resistência à opressão. Sua principal força é  a natureza pacífica de sua ocorrência , a não violência como método de ação. Como a arte que escorre das revoluções...
Foi o que conduziu Ghandi, na Índia e as passeatas e greves que fizemos no fim do período da ditadura militar no Brasil. Foi também o caso da luta contra a segregação racial, além da resistência à guerra do Vietnã, nos EUA. Nesses casos, a desobediência civil foi a expressão de um empenho político coletivo na resistência à opressão, não se constituindo como rejeição da obrigação política, mas a sua reafirmação.
 A desobediência civil é importante nos estados de anomia, ou seja, na ausência ou descumprimento generalizado das leis, pois significa resistência aos atos prejudiciais à dignidade da pessoa humana. Caracteriza-se por ser uma forma de protesto praticada por maiorias interessadas em modificar determinada realidade social e esgotados todos os meios legais de negociação. Objetiva chamar a atenção da opinião púbica para o problema, buscando solução através da modificação de leis ou da maneira como determinada política pública está caminhando. Assume, assim, a forma de chamar a atenção para um grupo de pessoas, definido este número em “significativos”, cujas queixas não surtirão efeito pelas vias legais, ou então quando o governo está na iminência de praticar algum ato injusto que irá prejudicar aquele grupo, sendo este ato, em tese, opressor de algum direito fundamental.
No método apreendido dos grandes movimentos dos anos 80 no Brasil, a alegria  foi a cor primária  usada em todas as suas nuances. “O povo, às claras quer a gema. A alegria é a prova dos nove", brincou mestre Florestan Fernandes no distante 1983, explicando a opção pela cor amarela das Diretas  já, o maior movimento brasileiro de todos os tempos e chave que abriu a porta da República ao chamado povo, além de matriz da Era Lula. 
            A alegria marcou os anos de 1980 para além do simples desbunde, pois, finalmente as questões do mundo privado romperam os laços de família e se tornaram objeto da política.O alcance da felicidade pública, aquela que sentimos participando do cotidiano político,  manifestando e  reivindicando direitos, criando novos direitos ou varrendo o entulho autoritário, como se dizia então, para longe do presente,  conferiu uma longa duração aos acontecidos naqueles anos e isso nos desembarcou no presente.
            A alegria continua sendo a prova dos nove.

11 de fev. de 2010



 Conheço mulheres e homens que
por razões diversa ou gosto de paixão
seriam capazes de deixar rosas vermelhas
nas mãos de bronze de Drummond e Pedro Nava
plantadas à sombra do velho Métropole,
fantasma que se diverte com a cena.
A visão das rosas frescas e vermelhas
 e eles conversando lá atrás.
No tempo em que eram jovens demais
para saber que ainda virariam estátuas.
 O instante aberto entre o espaço e o tempo
a imaginação, o sexto e mais forte dos sentidos
e lá estavam os dois jovens, a subir a Rua da Bahia.

Vitrais, pardais, azul do céu e dourados em esquinas.
O vento guia o cheiro das rosas em direção ao presente.

29 de jan. de 2010

Haiti em Arte ( diversos artistas)




Dubai derrete capitalista e sórdida
como o gelo no deserto da sua geografia.
Babilônia coberta com a vergonha
das muitas tribos que ergueram suas muralhas
de passaportes, aviões e hotéis .
A destruição de tudo que é sólido
ameaça de verdade e lança um bafo quente
de morte sobre os mares.
A fúria desperta dos Titãs
cairá sobre as tolas criaturas,
que sequer entendem como acionaram
a máquina do mundo.
Gaia vê seus filhos
perdidos nos labirintos de si mesmo,
prisioneiros dos desejos ilimitados pelas mercadorias
e eles atiram-se como cães famintos sobre sua pobre carne.
A vida não segue mais o curso dos rios
roubados para produzir a energia
que move a vida virtual
construída para justificar as horas.
A borboleta que bateu asas em Dubai atingiu o Haiti.
E a miséria explodiu em terremotos de corpos, todos negros.
Enquanto isso no alto da torre de poder, o presidente quase preto
ordenou o genocídio: foi preciso esperar três dias para mandar seus soldados ocuparem.
Tempo necessário para que os que estavam sob os escombros
morressem de sede.
Tempo necessário para não fingir socorro e virar ocupação militar.
Os ciborgs tomaram a cidade destruída
e apontam agora os olhos de rapina para as vizinhas Cuba e Venezuela
enquanto os lamentos dos que cantam seus mortos
evocam os deuses antigos
que parecem não ouvir mais vozes tão fracas:
"Reze pelo Haiti".       

25 de jan. de 2010

Cores do sertão

A luz transforma a cor em atração aos sentidos:.
impressão, sertão, imaginação.
Rio correndo
chuva, chuva.
Vôos de garças, gavião,
morros, longes, espaços que pegam a conversar com a alma do capiau,
E ele, bom de ouvido e de memória, guarda histórias  que gosta de contar em beira de fogo,
em rodas de café.
Verdade? Diz que foi...
E assim, de causo em caso ,
prossegue sertão.
Espantos e quebrantos
Cerrado, morada da mãe das águas e dos manancias,
Explode em cores e flores cumprindo o ciclo da vida:
o tempo é serpente que engole o próprio  rabo.

(Fotos: Margareth Franklin - janeiro 2010.
Cordisburgo - MG)



8 de jan. de 2010

A dor da gente não sai no jornal



Léo morreu fuzilado na Barragem Santa Lúcia na noite do ano novo. Tinha 18 anos e tinha ido passar as festas de fim de ano na casa da tia que mora por lá. Vivia com os pais e os irmãos em Ribeirão das Neves, era um menino querido por todos, não usava drogas, nunca cometeu qualquer ato violento e era um bom aluno.


Na noite em que morreu ele e suas primas foram dançar no baile funk da favela. Estava animado e cheio de planos para o ano que começava. Mas o pessoal do tráfico da parte de cima da Barragem confundiu Léo com o irmão mais novo do chefe do movimento da parte de baixo da favela. Em guerra há muito tempo a turma da Bolívia não pisa no alto da Barragem e vice-versa. Léo deu azar e os caras de cima não tardaram em mandar balas que acertaram a cabeça e o rosto do rapaz. Só bastante tempo depois viram que foi um vacilo, que eles pegaram o “alemão” errado.

Léo talvez vire estatística, talvez não, pois cada vez mais as estatísticas são peças de ficção e num ano eleitoral o importante é reafirmar a eficácia das medidas de segurança pública e de redução da criminalidade. Como é só um garoto anônimo certamente não haverá qualquer empenho em pegar seus assassinos. Afinal, morto no baile funk , para a polícia é só um marginal a menos. Além disso, quem vai se importar com um menino pobre baleado?

Os que viram como aconteceu vão ficar calados, pois essa é a lei da favela e manda o medo que o silêncio pesado abafe o fato até o esquecimento. Também são tantos os meninos que morrem por causa da guerra que eles não conseguem mesmo se lembrar de todos. Além da família, poucos vão chorar por ele.

Mas eu posso inventar que Léo não será nunca esquecido. Que do seu corpo menino plantado no chão do cemitério pobre de Ribeirão das Neves nascerá uma árvore enorme cujos galhos abrigarão ninhos de aves migratórias que sabem dos segredos do mundo inteiro. Quando elas chegarem, suas histórias serão ouvidas e quando partirem levarão os sonhos do rapaz para espalhar por terras distantes, como se fossem as sementes da árvore que plantarão por onde andarem. São sonhos de paz, cantam as aves.

Posso também inventar que na primavera a árvore se cobrirá de flores tão lindas que farão inveja às borboletas que moram por ali. E nas noites de frio, o vento que vem das montanhas passará de mansinho em volta da árvore, pois sabe que ali mora um deus menino que não deve ser incomodado em seu sono.

Porque certa vez eu ouvi que quando chegar o tempo em que tudo falhar e nem a história puder guardar a memória dos seres, ainda restará a poesia, como esperança última, como nossa última chance.

Que sua vida tão curta vire poesia, menino. Para não esquecermos nunca...
(publicado no jornal O Tempo de 12/01/2010)

19 de dez. de 2009



Série “ Cinco daguerreótipos de dois Nacnenucks (Botocudos) do acervo da Coleção Jacquart, guardada na Photothèque do Museu do Homem, em Paris - 1844. Os daguerreótipos foram feitos em Paris, para onde os índios foram levados. Nessa época os Botocudos do Leste mineiro, em guerra contra o Império, eram considerados um inimigo perigoso a ser eliminado.
Os índios conseguiram, à sua maneira e com seu corpo, contar sua  história sem palavras.

Que em 2010 os desejos nos guiem! Sim, eu posso !!!

"Em termos bíblicos, parece que estão nos oferecendo 30 peças de prata para trair o nosso povo. Nosso futuro não está à venda. Lamento informá-lo de que Tuvalu não pode aceitar este documento", disse o representante do pequeno país insular ao recusar o documento sobre o clima proposto na conferência de Copenhagen.




Tuvalu: país ameaçado pelo aumento do nível do mar.


18 de dezembro de 2009. Para mim a conferência sobre o clima foi francamente vitoriosa e é desconstruindo com a ação o discurso hegemônico que conseguiremos construir uma outra narrativa, para além da ficção globalitária, desenvolvimentista, tecnológica, patriótica, nacionalista, estatal , de partidos, enfim, de todas as vozes do capital que em coro decidem nossos destinos e nos colocam em rota de colisão com o futuro.

O mundo não pertence às empresas que nos destroem sob a bandeira de nações que apenas são espectros de poderes muito pouco compartilhados e excessivamente opressivos.

A derrota de um acordo é a melhor coisa que poderia ter acontecido, pois desmascara o falso da proposta dos dois maiores responsáveis pela catástrofe: China e EUA, gafanhotos vorazes a tirar do planeta o que podem na sua ânsia de produzir lixo.

Os próximos anos devem ser de muita ação e gloriosamente, os militantes, os que lutam, voltam a aparecer em massa, em Copenhagen e aqui, desafinando o coro dos contentes, gritando, raça anã de humanos, corpo frágil e minúsculo contra Cila e Caríbde,

Esse é o tempo da desobediência civil, do movimento crescente das maiorias, das grandes marchas em defesa da vida. Só assim nos salvaremos e poderemos "plantar e produzir nova cultura". Acredito que o reino da necessidade não prevalecerá sobre o reino da liberdade. Descobrimos que temos muito mais do que precisamos. Repartir é que é o problema. Repartir o conhecimento, a comida, a energia, os recursos, a fé, a esperança.

De Tuvalu para o mundo: a nova ordem começa em cada um para depois ser construída por todos. É uma questão de desejo.

Que em 2010 os desejos nos guiem! Sim, eu posso !!!